Crônicas & Reflexões


                                                                      Sobre Contos e Crônicas
 
Os contos e crônicas são verdadeiras joias literárias, capazes de nos transportar para outros mundos e nos envolver com personagens cativantes e narrativas envolventes. São gêneros literários que nos apresentam com breves histórias, carregadas de significado e emoção. 

Os contos, com sua concisão e precisão, nos encantam ao condensar uma trama complexa em poucas páginas. São como pequenos universos que se destacam diante de nossos olhos, explorando temas complexos como amor, amizade, aventura e superação. São como flashes de imaginação que nos refletem sobre a condição humana e despertam nossa capacidade de sonhar.

Já as crônicas, com seu tom mais pessoal e intimista, nos convidam a mergulhar nas reflexões e observações do autor sobre a vida cotidiana. São retratos da realidade, permeados por doses de humor, ironia e sensibilidade. Através das crônicas, nos reconhecemos nas situações descritas, nos identificamos com os personagens e nos deliciamos com a sagacidade do autor ao capturar os detalhes mais sutis da existência.

Tanto os contos quanto as crônicas são formas literárias versáteis, que permitem aos autores explorar diferentes estilos e temáticas. Podemos encontrar contos de fantasia, mistério, ficção científica, romance e muito mais. Da mesma forma, as crônicas podem abordar assuntos diversos, desde as trivialidades do dia a dia até questões sociais e filosóficas mais profundas.

A beleza desses gêneros está em sua capacidade de nos transportar para um mundo imaginário ou nos fazer enxergar o familiar sob uma nova perspectiva. São narrativas que nos fazem refletir, nos emocionar e nos conectar com os sentimentos e experiências compartilhadas pelos personagens.

Ler contos e crônicas é uma experiência enriquecedora, pois nos permite desfrutar de uma história completa em um curto espaço de tempo. São pequenos tesouros literários que podemos saborear a qualquer momento, seja em momentos de pausa durante o dia, antes de dormir ou em uma tarde ensolarada.

Portanto, permita-se embarcar nesse universo encantador dos contos e crônicas. Descubra novos autores, mergulhe em diferentes estilos e deixe-se envolver pelas narrativas breves, porém impactantes. Os contos e crônicas são convites irresistíveis para explorar o poder das palavras e se perder nas páginas de um mundo de possibilidades.

Maurício de Souza Lino,
Bibliotecário,
Historiador,
Professor,
Escritor.


                                        A Máquina do Tempo Escondida nos Livros

Era um dia chuvoso de domingo, quando a luz suave do entardecer atravessava as cortinas semiabertas, criando um clima de melancolia no aconchego do meu lar. Nesse cenário nostálgico, mergulhado em um turbilhão de pensamentos, uma ideia brilhante e inusitada surgiu em minha mente: ler. Avistei a estante repleta de livros que, ao longo dos anos, foram meus fiéis companheiros de aventuras e conhecimento.

Meu olhar atento era o reflexo da paixão que nutria por desvendar os mistérios do passado, a fim de compreender o presente e vislumbrar o futuro. Um desejo empolgante encheu meu coração de entusiasmo e imaginação. Imagine só, poder viajar pelo tempo, testemunhando os eventos históricos, conhecendo grandes personalidades do passado e explorando épocas distantes.

Decidido a explorar essa ideia fascinante, comecei a desenhar esboços e esquemas para a uma máquina do tempo. Teorias complexas e ideias mirabolantes tomaram forma no papel, enquanto minha empolgação crescia exponencialmente. Imaginava como seria atravessar as barreiras do tempo e embarcar em jornadas que desafiassem o conceito linear do passado, presente e futuro. A perspectiva de possuir uma máquina do tempo parecia quase mágica, algo saído das páginas de um dos meus livros favoritos de ficção científica.

No entanto, à medida que aprofundava em meus estudos e pesquisas, percebi que a máquina do tempo, tal como a vislumbrava, permanecia apenas na esfera da imaginação. As leis da física e os paradoxos temporais pareciam ser obstáculos intransponíveis. Mesmo assim, essa descoberta não me abateu, pois logo me ocorreu que, de alguma forma, eu já possuía uma máquina do tempo!

Um pensamento chamou minha atenção: "A Máquina do Tempo Existe: São os Livros". Curioso e imaginativo, deixei-me envolver pela ideia de que talvez, de alguma forma mágica, aqueles livros escondam portais para o passado.

Ao observar a biblioteca da sala, repleta de livros alinhados meticulosamente em prateleiras, percebi que cada volume continha uma viagem pelo tempo esperando ser empreendido.

Cada livro era uma porta para um período específico da história, uma passagem para o passado ou uma janela para o futuro. Cada lombada trazia consigo uma história única, um universo vasto e desconhecido.

Sem hesitar, decidi explorar essa suposta máquina do tempo que estava à minha frente. Escolhi um livro de capa desgastada, uma relíquia entre tantos outros. Ao abri-lo, senti como se uma corrente elétrica percorresse meu corpo, e em um piscar de olhos, me vi transportado para outra época.

Comecei a ler e, de repente, vi-me envolvido em uma sensação de expectativa. O ambiente ao meu redor parecia desvanecer-se, e uma luminosidade peculiar invadiu o espaço. Quando menos esperava, vi-me imerso em uma realidade completamente distinta, uma época que só conhecia por meio de meus estudos minuciosos.
A primeira parada dessa viagem pelo tempo levou-me à Grécia Antiga, onde pude observar os filósofos aprofundando-se em questões que moldariam a filosofia ocidental. Presenciei os Jogos Olímpicos originais, onde a rivalidade entre cidades-estado alcançou seu ápice em competições esportivas memoráveis.

Seguindo em minha jornada, atravessei as eras e encontrei-me no auge do Império Romano. Andei pelas majestosas ruas de Roma e testemunhei as grandiosas conquistas do povo romano, mas também os desafios enfrentados por aquela sociedade marcada por intrigas políticas e lutas pelo poder.

Aterrissando em outra jornada, as páginas das memórias, personagens e cenários ganharam vida ao meu redor. Meu destino agora foi uma época medieval, onde conheci cavaleiros valentes, princesas encantadoras e vilões cruéis. Percorri campos verdejantes, ouvi os galopes dos cavalos e vivenciei torneios épicos.

Quanto mais folheava, mais me dava conta de que não havia limites para minha jornada pelo tempo.

As possibilidades eram infinitas, e cada livro que se me apresentava era uma nova perspectiva e compreensão do mundo.

Ao folhear um livro após o outro, senti como se cada página me transportasse para uma realidade distinta.

Mergulhei na antiguidade das civilizações perdidas, testemunhei o florescimento das artes e ciências em épocas da Renascença, um período de efervescência cultural e intelectual. Conheci grandes mentes da época, caminhei pelas ruas de Florença, encontrando Leonardo da Vinci e Michelangelo, homens cujas obras transcendiam o tempo e ecoavam por séculos, que me inspiraram com sua genialidade e inovação. Acompanhei os eventos que moldaram o mundo contemporâneo. Viajei por diferentes lugares e culturas, vivendo inúmeras aventuras através das palavras escritas pelos autores.

Cada página me fazia absorver o conhecimento como uma esponja, sentindo-me enriquecido a cada instante.

A viagem continuou pelos séculos XVIII e XIX, presenciando as revoluções e os avanços industriais que mudaram radicalmente o curso da história. Vivi os momentos emocionantes de independência de nações e batalhas pela liberdade. Adentrei a era vitoriana, um tempo de etiquetas rígidas, passeio por romances emocionantes e intrigas palacianas. Era como se eu estivesse presente em todas aquelas histórias, um observador silencioso e privilegiado dos eventos que moldaram a humanidade.

As décadas voaram diante de mim, e em uma sucessão de saltos temporais, chegaram ao século XX. Testemunhei guerras mundiais, momentos de profunda tristeza e períodos de imensa alegria. Viajei pelos cantos mais remotos do planeta, conhecendo culturas diversas e experimentando a metamorfose do mundo ao longo do tempo.

E assim, de século em século através dessa jornada, acompanhei o tempo, absorvendo o conhecimento em sua essência pura, enriquecendo minha compreensão sobre os fios invisíveis que entrelaçam o passado ao presente. Percebi que cada época, cada evento, cada personagem histórico tinha sua parcela de contribuição para a formação do mundo contemporâneo.

Quando finalmente voltei ao meu presente, fui tomado por uma profunda gratidão pelos livros que me acompanharam nessa jornada extraordinária. Eles foram minha máquina do tempo particular, me permitindo explorar diferentes épocas, culturas e realidades sem sair do conforto do meu lar. Carregando comigo o tesouro dessas experiências temporais, senti-me ainda mais conectado à minha paixão.

Descobri que, mesmo sem uma máquina física, minha estante de livros abrigava uma rica máquina do tempo, capaz de me transportar para qualquer época e lugar. Através do poder das palavras, poderia ser um espectador, um participante e, acima de tudo, um aprendiz constante da história da humanidade.

Nesse momento, tomei consciência que as histórias escritas nas páginas dos meus livros eram mais do que meras palavras. Eram portais para uma vivência de experiências, uma fonte inesgotável de sabedoria e entretenimento. Com uma felicidade imorredoura, percebi que possuía algo muito mais valioso do que uma máquina do tempo: a eterna fonte de inspiração, conhecimento e sabedoria encontrados em minha biblioteca pessoal. Cada livro era um tesouro, um elo com o passado e um portal para o futuro.

Através dos livros da biblioteca, eu me tornava um viajante do tempo, sempre ansioso por desbravar as páginas da história e, ao mesmo tempo, encontrar o meu próprio lugar nesse intrincado tecido temporal.

A partir desse dia, meu desejo de possuir uma máquina do tempo transformou-se ardorosamente em um apreço profundo por meus livros. Eles eram companheiros inseparáveis, e cada nova leitura era uma oportunidade de enriquecer minha mente e meu coração. Minhas pesquisas e narrativas ganharam uma profundidade única, permeada pela vivência pessoal de ter viajado através das eras. Sabia que o passado era uma fonte inesgotável de sabedoria e aprendizado, e que, por meio dos livros e de minha própria curiosidade, seria eternamente um viajante incansável da máquina do tempo chamada história.

Com o coração repleto de aprendizado e saudade das jornadas vividas, prometi a mim mesmo continuar a explorar a máquina do tempo que existe em meus livros. Pois, afinal, nunca estarei verdadeiramente sozinho enquanto tenho a magia das palavras e as histórias que me aguardam em cada página ainda não lidas.


Do Inverno à Primavera em Campos do Jordão

Em maio principia o inverno em Campos do Jordão. Tempo das grandes geadas noturnas, dos dias claros, lindíssimos, de deliciosa pureza celeste, o frio seco e o ar muito fino, de uma doçura divina.
Ah! A primavera há de reinar! O inverno nunca falha em se tornar primavera! As ruas da cidade ficarão cheias de flores. Será um encanto! 
Alegria para os amantes... perfume de amor.... nessa estação, primavera, as ruas irão amanhecer cheias de flores... cativantes.... Será uma primavera cheia de fragrância. Sairemos à rua e sentiremos o perfume da alegria. Passarinhos cantando e Campos do Jordão mais colorida. 

É a primavera na montanha, tuchado de flores por toda a parte, com infindáveis cores! Tudo lindo! Essa estação promete, é a época do ano mais alegre e viva! Será uma profusão! A cidade vira um encanto, um sonho! 

Ah! Amo flores. Meu pequeno jardim começa no meu coração... e as flores, são as sombras de Deus. Acredito que seja verdade, pois ao contemplá-las sentimos o amor que Ele tem por nós! Campos do Jordão, o Jardim do Brasil, continua do jeito que Deus criou!


Maurício de Souza Lino,
Bibliotecário,
Historiador
Professor,
Escritor.

 
Minha Paixão por Campos do Jordão


As montanhas sempre me fascinam. Nada me encanta mais do que as montanhas. Nasci numa delas, na Serra da Mantiqueira, Campos do Jordão. Sou montanhês, jordanense. Sinto-me honrado e privilegiado em nascer aqui. Tenho uma relação intensa de amor com essa montanha. Sou apaixonado por ela; paixão não tem limites.Não eu mesmo sei explicar esse amor. Me sinto livre, em meio a grandes morros e lombas. Que maravilha andar acima, se embrenhar em suas matas, às vezes densa, às vezes não, e ver a paisagem sob uma perspectiva diferente. Estou apaixonado! Sinto as mais diversas sensações de estar em contato com essa natureza. Sou como um cabrito montanhês, que fica sempre nas alturas apreciando a paisagem. Há cachoeiras, lagos, beleza e mistério. O ar é mais puro. A montanha me preenche, me eleva... me faz sentir quão pequeno sou...um pequeno homem das montanhas. O prazer da vida próximo à natureza é fascinante!

A montanha me faz um desafio a mim mesmo, fazendo com que eu conquiste minhas dúvidas; um desafio saudável, ao proporcionar paisagens belíssimas. Sim, viver nessa montanha alta e fria, me incita. É maravilhoso e difícil descrever. Um sentimento de paz e sensação de liberdade, reina completamente. Um lugar verdadeiramente especial e um cenário perfeito. Uma visão panorâmica de Alpes.

Gosto de viver nas montanhas de Campos do Jordão. É uma amizade de altitude, de montanha! É o meu habitat convencional. Suas montanhas e serras, à distância, azuis, chamam-me a atenção. Sinto-me seguro, nessa aventura única de viver. Sinto e respiro seu ar salubérrimo. É inexplicável a sensação que se tem.

As montanhas de Campos do Jordão além de fascinantes, são exuberantes, lindas e imponentes. Montanha poderosa, suntuosa, estática, impávida e colossal. Elas me dão motivação e me inspiram... onde brotam as melhores flores de altitude... onde inúmeros jardins encantam os olhos. Montanhas que moldam a felicidade e a simplicidade da vida. Isto é Campos do Jordão!

Escrevo nas montanhas. Alguém já disse que todo ser humano quer viver no topo das montanhas, mas a verdadeira felicidade consiste em escalá-las, dominá-las. A natureza me lembra que não somos invencíveis..., mas a fé move montanhas... a paixão move montanhas. É uma viagem ambiental. Campos planos, lombas, colinas, onde altas árvores mascaram os raios do sol. Todo verde, como aquelas fotos perfeitas que se acham em revistas de viagem. Campos verdes que nos deixam a paz.

Eu me apaixonei por Campos do Jordão. É a minha montanha! O dia é lindo, a sensação de frio seduz, instiga... É uma montanha magnífica. Sua paisagem é deslumbrante, uma visão panorâmica incrível. Morros, serras e cumes, vales e rios. Sensação de gratidão e plenitude. É sublime!   


Maurício de Souza Lino,
Bibliotecário,
Historiador,
Professor,
Escritor.


                                                       A Flor que Nasceu no Brejo

Era uma vez uma flor que nasceu no meio do brejo...

Um brejo não é um pântano. Um brejo é um lugar de luz, onde a grama brota na água e a água escoa para dentro do céu. Córregos vagarosos serpenteiam levando consigo a esfera do sol até o mar, e aves de pernas compridas alçam voo com uma graça inesperada — como se não tivessem sido feitas para voar — em meio ao rugido de mil garças.

Então, dentro do brejo aqui e ali, um pântano de verdade rasteja até lamaçais baixos escondidos em florestas úmidas. A água do pântano é parada e escura, porque engoliu a luz lá dentro da sua garganta lamacenta. Até os animais noturnos são diurnos nesse antro. Há sons, claro, mas, em comparação com o brejo, o pântano é silencioso, pois sua decomposição é um trabalho das células. A vida apodrece, exala seu fedor, e volta a ser uma turfa decomposta; um comovente chafurdar de morte que gera vida.

Enquanto o pântano recebe água de rios e da chuva e é pobre em nutrientes, os brejos são alimentados por águas subterrâneas ricas em minerais. Os brejos são terrenos abundantes de matéria orgânica. Os brejos são ricos em nutrientes e a vegetação é bastante variada. Além de plantas que precisam de mais luz, também são encontradas muitas espécies de insetos e anfíbios. O brejo também é o habitat de muitos pássaros, como o quero-quero, maçaricos, pernaltas, e diferentes espécies de patos.

O brejo é fonte de rios em cabeceiras e nascentes, frequentemente em zonas onde eles transbordam – formando um aspecto alagado. O brejo é encontrado em diversos espaços no meio ambiente. Os brejos são comumente confundidos com os pântanos. Isso porque ambos os terrenos são aparentemente abandonados e lamacentos.

O pântano é caracterizado por ser uma área com diversas vegetações, já o brejo, é composto apenas por barro e água. Em grande parte do tempo, o pântano é um local inundado. No entanto, o brejo pode ter fases de mais barro que água – inclusive, tornando-se uma área de risco para atolamentos.

Os pântanos se formam em locais onde o escoamento de água é muito lento. Portanto, ela se armazena e permanece empoçada. O brejo é o próprio escoamento lento.

A vegetação de brejo é formada predominantemente por uma variedade de ervas fixas no fundo, flutuantes livres ou flutuantes presas no fundo, dentre outras. Contudo, pode apresentar algumas árvores e arbustos. Aguapé, Cavalinha, Copo de Leite, Flor de Lótus, Lírio do brejo, Ninfeias, Papiro do Egito, Papoula d’água, Pingo Dourado, Vitória Régia, taboa e outras.

Não podemos deixar, como diz o ditado “a vaca ir para o brejo” nós é que temos que deixar a noite, o conforto da televisão e procurar o tesouro que está escondido no brejo, na excentricidade de sua flora, na riqueza de sua fauna, na sincronia melódica da orquestra de sapos e pererecas, e ainda no show de luzes dos vagalumes e pirilampos, como se as estrelas descessem na terra para compor o cenário. É assim que a natureza nos recebe, quando nos aproximamos dela, com lições de harmonia, beleza e sabedoria.

A vida cristã é semelhante ao nascimento e crescimento de uma pessoa natural. Costumo comparar esse crescimento a uma jornada montanha acima, começando por um brejo, um lodaçal. As pessoas precisam sair do brejo, e começar a andar em terra firme numa geografia que vai subindo cada vez mais. À medida em que saímos do brejo e subimos montanha acima, percebemos que existem muito mais coisas à nossa volta, porque nossa vista vai cada vez mais longe.

Os brejos não ficam nos altiplanos, nem entre os morros e colinas. Mas sim, nos vãos entre as montanhas, no fundo dos vales, onde não se consegue ver nada senão lama e plantas aquáticas, quando não, animais asquerosos (cobras, lagartos, aranhas, etc). Na lama, não se entende o amor de Deus, a salvação, a paz, o perdão, a misericórdia. Quem está na lama interessa-se apenas e tão-somente na própria diversão e prazer, na consecução de seus próprios objetivos egoístas, na própria felicidade. Lama é pecado, lagoa e brejo é o mundo e o lamaçal do pecado. Mosca é a imoralidade.

Como a borboleta na fase de lagarta, que vegeta sempre e nunca alcança as asas libertas para voar, respira os ares poluídos da terra e contamina-se com o lodo do brejo, assim é o homem natural que se consome nas areias do deserto da vida espiritual, apenas um lago lamacento cheio de lírios.

O lírio é uma flor estranha. Ela nasce na lama e tem que forçar seu caminho através da lama, da água e do lodo, para chegar até a luz do sol e mostrar sua beleza.

Desde aquele tempo, quando era jovem, um lírio do brejo se empurrou para a superfície da água, espalhou suas pétalas e refletiu a beleza do Lírio dos Vales, Jesus!

Exatamente como o lírio...

Creio que o lírio é uma das flores mais bonitas que existe. Gosto muito destes grandes copos-de-leite e dos lírios do brejo.

Dificilmente existe algo mais bonito do que um grande lírio do brejo, que chamamos de lírio d’água. Como é radiante!

E o que o faz crescer? Aquela sementinha, não obstante o esplendor que sempre brilhará nela, esteja ali dentro, está na lama. Uma sementinha lá embaixo no lodaçal, naquele brejo imundo.

Mas ela tem que se esforçar diariamente, sabendo que existe algo... Está cinzento, negro; está sujo; está imundo; está enlodado naquele pântano em que vive, e mesmo assim, força o seu caminho através da lama, do lixo, das águas, e dos lugares estagnados até que tire sua cabeça para fora, na luz, e expresse o que havia escondido ali o tempo todo.

Agora o lírio está por cima; ele é o vencedor. Ele vence a lama! Ele vence as coisas do mundo, e agora se entrega espontaneamente. Todos podem olhar para ele, sua vida... Vejam! É um verdadeiro vencedor. Não se pode dizer nada dele agora, mas apenas: “Saia da lama”; pois, ele não está na lama agora; ele está acima dela.

“Transformarei Babilônia numa terra de brejos, onde só viverá o porco-espinho. Vou varrer essa terra com a vassoura da destruição, diz o Senhor do Universo” (Isaías 14,23).

“A terra seca se transformará em brejo, e a terra árida em mananciais de água. Onde repousavam os chacais surgirá um campo de juncos e de papiros. Ali haverá uma estrada, um caminho que será conhecido por Caminho de Santidade” (Isaias 35,7-8).

Quando vemos alguém com a vida perdida, é porque o coração dela já “foi para o brejo” há muito tempo. Sentimos dificuldades em tirar o pé da lama.

Agora é sua vez de deixar o pântano...


Maurício de Souza Lino,
Bibliotecário,
Historiador,
Professor,
Escritor.


Feliz Primavera!

































A casa está ornamentada por glicínias, anunciando a chegada da primavera com suas cores suaves e fragrância no ar. Borboletas dançam ao redor dos buquês, emoldurando os lagos tranquilos.

Uma cobertura de madeira serve de caminho para que as flores se enrolem e caiam em cachos delicados. Elas se espalham entre canteiros cheios e varandas acolhedoras, formando grinaldas que revestem as paredes e criam um dossel de sombra e cor.

Na sacada, as glicínias sorriem para quem passa, exibindo suas tonalidades lilases em uma fragrância encantadora. Sua beleza e melancolia também se revelam sob os alpendres, que oferecem refúgio a quem busca momentos de tranquilidade.

Sob esse manto arroxeado, a casa se transforma em cenário de conto de fadas. A primavera é anunciada por esses cachos pendentes, que trazem consigo um perfume doce e envolvente, como um convite para entrar em um mundo encantado.

Através das janelas, a vista se abre em espetáculo de cores serenas. As borboletas, como bailarinas graciosas, celebram a estação mais florida. No jardim, o corredor de madeira se torna passarela para quem se entrelaça em cachos suspensos, moldando a paisagem em delicada harmonia.

À medida que a tarde se despede, o eirado se cobre de flores, e o perfume característico da estação — mistura de frescor e doçura — acaricia os sentidos, alegrando o coração. A beleza delicada enche cada canto e, com seu sorriso roxo, anuncia: feliz primavera!

Maurício de Souza Lino,
Bibliotecário,
Historiador,
Professor,
Escritor.

Inverno em Campos do Jordão


Campos do Jordão, no alto da Serra da Mantiqueira, é um lugar onde a natureza se veste de beleza em todas as estações, mas é no inverno que ela exibe um espetáculo de rara poesia. Esta semana, os campos, jardins e gramados da cidade foram cobertos por uma geada intensa, um fenômeno que nos faz lembrar das palavras do Salmo 147: "Ele... é quem esparge a geada como cinza...".

Ao amanhecer, a cidade desperta em um silêncio gelado, e a primeira luz do dia revela uma paisagem digna de um conto encantado. O branco cristalino da geada cobre cada folha, cada flor e cada lâmina de grama, como se um manto delicado tivesse sido cuidadosamente estendido pela noite. Os raios de sol, ainda tímidos, brilham sobre essa cobertura gelada, transformando os campos em tapetes cintilantes. É como se a natureza respirasse devagar, deixando escapar uma névoa leve que se eleva dos lagos e riachos, adicionando um toque de magia ao cenário.

Nos jardins, as flores, os pinheiros e os arbustos parecem ter sido salpicados com um pó de diamantes. As teias de aranha, invisíveis durante o dia, tornam-se redes de luz, capturando o brilho do amanhecer e revelando uma perfeição que só a natureza sabe criar. Nos gramados, a geada forma padrões únicos, delicados e efêmeros, que mudam a cada passo e a cada segundo. É um espetáculo silencioso e ao mesmo tempo poderoso, que desperta o fascínio e a admiração de quem observa.

Campos do Jordão se transforma em um verdadeiro reino de inverno, onde a geada não é apenas um fenômeno natural, mas uma manifestação sublime da beleza. Neste cenário, o tempo parece desacelerar, convidando-nos a contemplar e a agradecer por essa obra de arte que nos é presenteada. Cada manhã gelada é um lembrete da grandiosidade da criação, um convite para mergulhar na serenidade e na paz que só a natureza pode oferecer. O inverno nunca falha em se tornar primavera.

Maurício de Souza Lino,
Bibliotecário,
Historiador,
Professor,
Escritor.
Compartilhado com: Público
Crônica das Estrelas

Dizem que a vida é breve, um sopro. Mas, olhando para o céu estrelado, compreendo que cada instante é uma travessia em um oceano sem fim. Eu sei: sou um espírito em essência, tenho uma alma que sente e sonha, e habito um corpo que caminha nesta terra, olhando para o céu que me chama de volta para casa. E caminhar, para mim, é ir além do que os olhos alcançam.

Nasci em 1958, e desde então tenho girado com a Terra ao redor do Sol, feito um viajante que nem percebe a imensidão de sua jornada. Já completei sessenta e seis voltas ao redor da estrela que aquece o meu mundo. Mas a cada volta, o Sol também se move, puxando a Terra e a mim numa dança em espiral pela galáxia. E a Via Láctea, essa nave colossal, desliza pelo universo, como se fosse um barco prolongado por mãos invisíveis.

Penso nisso e sorrio: sou um viajante cósmico, mesmo quando estou parado em Campos do Jordão, com os pés firmes no chão. Minha caminhada não tem pressa. Sigo em um passo de bilhões de anos.

Às vezes, reflito: onde estou, de fato? Sou um ponto no tempo, uma fração de segundo em relação à eternidade das estrelas. E, no entanto, há algo em mim que é mais vasto do que o tempo. Sinto que carrego uma memória antiga, como se minhas partículas tivessem visto o brilho de Betelgeuse e ouvido o silêncio das nebulosas antes mesmo de eu ter um nome.

Talvez seja por isso que sinto esse impulso de olhar para cima. Não para escapar do mundo, mas para compreendê-lo melhor. Eu vejo o céu, e nele percebo o que sou: um viajante da fé e da razão. Alguém que carrega dois baús preciosos.

No baú da ciência, encontro como ferramentas para entender o que vejo. Distâncias, velocidades, leis que regem o espaço e o tempo. Descubro que a luz de Betelgeuse leva 642 anos para eu alcançar, e a estrela que vejo hoje é o passado se apresentando como presente.
No baú da fé, abro um espaço onde não é a razão que guia, mas a esperança. A certeza de que existe algo além do que a ciência explica.

Um olhar que vai além dos anos-luz e mergulha no eterno. Um olhar que vê com o coração, como quem enxerga o céu com um telescópio da alma.

E assim sigo minha jornada. Sei que sou parte de um ciclo maior. Um ciclo onde nascemos, partimos e retornamos. Não sei quando, nem como, mas tenho a verdade de que o universo, com sua imensidão, não deixa nada escapar. Tudo se reconecta, em um eterno retorno.

Nesta Crônica das Estrelas, sou o autor e o personagem. O viajante e o narrador. O homem que anda pela Serra da Mantiqueira e o peregrino que sonha com constelações distantes.

Talvez um dia, em um tempo que ainda não conheço, eu alcance Alpha Centauri, não com máquinas, mas com meu ser. E lá, observarei novos céus e abrirei outros baús. E, quem sabe, enxergarei o que antes não podia ver.

Mas, por enquanto, sigo aqui. Com os pés na terra. E o coração nas estrelas.

Maurício de Souza Lino,
Bibliotecário,
Historiador,
Professor,
Escritor.


Abernéssia: A Crônica da Fundação

Era o final do século XIX, e início do século XX, uma época de grandes migrações e descobertas pelo mundo. Em uma pequena vila chamada Abernéssia, localizada em Campos do Jordão, no estado de São Paulo, Brasil, uma história de união entre terras distantes estava prestes a começar.

Nascido em Kirkill, no condado de Inverness, na Escócia, em 22 de dezembro de 1868, Robert John Reid cresceu em uma região repleta de histórias e tradições. Aberdeen, um importante porto no Mar do Norte, era uma cidade vibrante e cheia de vida. Sua economia baseava-se principalmente na indústria de energia, especialmente petróleo e gás natural, o que lhe rendeu o título de Capital Europeia de Energia. Aberdeen também era conhecida como a "cidade do granito", devido à grande quantidade de edifícios construídos com essa pedra natural.

Robert John Reid, jovem e aventureiro, sentia-se atraído pelas oportunidades oferecidas pelo Brasil em meados de 1890. Com o desejo de explorar novas terras e buscar um futuro promissor, ele decidiu deixar sua terra natal e partir para a América do Sul. Em 1896, aos 28 anos, Reid chegou ao Brasil, com o objetivo de estabelecer-se em uma região que lembrasse suas raízes escocesas.

Foi então que ele encontrou Campos do Jordão, uma estância montanhosa localizada a cerca de 170 km da cidade de São Paulo.

Encantado com a beleza e semelhança com as paisagens das Highlands escocesas, Reid viu ali a oportunidade perfeita para fundar uma nova comunidade e trazer um pouco da sua cultura e história para o Brasil.

A "Chácara da Fazenda", posteriormente chamada Vila Nova, era uma das grandes propriedades que compunham a Fazenda Natal, juntamente com outras fazendas importantes na região de Campos do Jordão. A Fazenda Natal abrangia várias áreas, incluindo a Fazenda do Banco do Estado no bairro de Santa Cruz, a Fazenda do Salto, onde se originou o primeiro manancial e represa com o mesmo nome, a Fazenda Correntinos (atualmente conhecida como Descansópolis), a Fazenda da Guarda, onde está localizado o Parque Estadual de Campos do Jordão, a Fazenda do Retiro, a Fazenda do Baú, a Fazenda da Campista e a Fazenda Capivari, entre outras propriedades.

Essas fazendas desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento da região de Campos do Jordão. Elas eram responsáveis pela produção agrícola, pecuária e pela exploração de recursos naturais, como madeira e água. A Fazenda do Banco do Estado, por exemplo, era uma importante propriedade que pertencia ao Banco do Estado de São Paulo e desempenhava um papel econômico significativo na área.

Robert John Reid começou a estabelecer-se na região, unindo-se a outros pioneiros que buscavam explorar as riquezas naturais e o clima ameno das montanhas.

O primeiro núcleo de desenvolvimento de Vila Abernéssia chegou com os trilhos da Estrada de Ferro de Campos do Jordão, à beira dos quais ela nasceu e se desenvolveu, recebendo o nome de Vila Nova, o que bem demonstrava o seu estado embrionário.

A palavra "Abernéssia" foi uma combinação de "Aberdeen" e "Inverness", duas cidades do norte da Escócia. Essa fusão foi uma homenagem a esse homem corajoso e destemido: Robert John Reid. Quando doou um terreno para a construção da EFCJ, Robert Jonh Reid sugeriu que fosse denominada Abernéssia. Retirou a primeira sílaba do nome da primeira ABER e a esta anexou a última sílaba do nome da segunda, NESS o que resultou em ABERNESS. Antes de concluir seu trabalho, acabou por acrescer o pequeno sufixo IA da Escócia, sua terra natal. Concluindo, denominou a Nova Vila ou Vila Nova, como muitos a chamaram durante vários anos, de Vila Abernéssia (ABER + NESS + IA).

Forneceu energia elétrica e água para os moradores de Vila Nova. Em reconhecimento à sua ação política, as autoridades deram à Vila Nova a denominação de Vila Abernéssia.

Nasceu a Vila Nova em 12 de novembro de 1919, quando da inauguração do novo edifício da Estação em contraposição à Vila, já existente, que o povo chamava de Vila Velha, atualmente Vila Jaguaribe.

Muitos dos trabalhadores e funcionários da Ferrovia que chegaram à Vila Nova, encantados com a beleza da terra, resolveram ficar e começar a vida.

Com sua visão empreendedora, Robert John Reid investiu na construção de casas, infraestrutura básica e no desenvolvimento da economia local.

A comunidade cresceu rapidamente, atraindo imigrantes e visitantes que se encantaram com o charme e o clima agradável da região.

Enquanto Vila Nova prosperava, as cidades de Aberdeen e Inverness, na Escócia, continuavam a desempenhar papéis importantes em suas respectivas regiões. Aberdeen era um centro portuário movimentado, onde os rios Dee e Don encontravam o Mar do Norte. Com uma indústria de petróleo em alto-mar, a cidade era conhecida como a "cidade de granito" devido à abundância de construções feitas com essa pedra característica. Aberdeen era uma cidade próspera, com baixo desemprego e uma alta qualidade de vida, impulsionada principalmente pela indústria energética.

Por sua vez, Inverness era a capital das Terras Altas escocesas, uma região repleta de lendas e tradições. Com um mercado agropecuário ativo e uma indústria têxtil florescente, a cidade era um centro comercial importante na região. Além disso, Inverness era famosa por sua catedral do século XIX e por ser o suposto lar do lendário Monstro do Lago Ness. Embora a existência do monstro seja objeto de debate e especulação, ele se tornou um símbolo de mistério e um atrativo turístico na região.

Enquanto Vila Nova prosperava em solo brasileiro, Robert John Reid não esquecia suas raízes escocesas. Ele manteve contato com sua terra natal e fez intercâmbio entre Abernéssia e as cidades escocesas de Aberdeen e Inverness, por meio de correspondências, trocas de informações e visitas ocasionais. A conexão entre essas terras distantes permanecia viva.

Ao longo dos anos, a então Vila Abernéssia cresceu e se desenvolveu, tornando-se um destino turístico popular e uma referência para os visitantes e turistas no Brasil e exterior.
Hoje, Vila Abernéssia é um lugar onde podem explorar a história da sua fundação e desfrutar de suas belezas naturais. As ruas, outrora, de paralelepípedos e as construções deram um charme único à vila, transportando os visitantes para uma viagem no tempo.

Abernéssia é um exemplo vivo da união entre diferentes culturas e da capacidade de criar laços duradouros além das fronteiras. Graças a Robert John Reid e sua visão de um lar que lembrasse suas raízes escocesas, essa pequena vila no Brasil tornou-se um lugar especial onde a herança e a história da Escócia encontraram um novo lar nas montanhas de Campos do Jordão.

Uma justificativa para considerarem Aberdeen, e Inverness, cidades co-irmãs de Campos do Jordão.

Fontes de Pesquisa:

PAULO FILHO, Pedro. História de Campos do Jordão. 1986. Campos do Jordão: Santuário. p. 784;
LINO, Maurício de Souza. Da Freguezia do Imbery aos Campos do Jordão. Campos do Jordão: Clube de Autores, 2016. 646 p.
LINO, Maurício de Souza. As Três Vilas. 2018. Campos do Jordão: Clube de Autores. p. 264.

Maurício de Souza Lino,
Bibliotecário,
Historiador,
Professor,
Escritor.

Primavera, Mamãe e as Dálias da Saudade...

Bom dia. Hoje, trouxe dálias!

No jardim de nossa casa em Vila Guarani, mamãe cultivava dálias, muitas dálias. Eram as suas flores prediletas. Qual a sua flor favorita? Mamãe tinha uma queda pelas dálias. As brancas então... seu coração batia forte! As flores prediletas fazem um bem enorme para a alma. É só bater o olho nela que a gente sorri por dentro.

Dália é uma flor que lembra a minha infância. Mamãe tinha muitas espécies e a cada ano enterrava mais alguns bulbos na terra que ela recebia de uma vizinha, comadre ou amiga. Mamãe retirava e juntava as cinzas do fogão à lenha e, posteriormente, utilizava como adubo no cultivo da flor. Eu me lembro que era de fácil cultivo e o resultado me fascinava. Dálias lindas, carismáticas e imponentes.

Sempre que vejo uma dália florescida, me lembro de mamãe. Se pudesse, certamente a levaria para dentro de casa e a colocaria num vaso. Nossa casa tinha um imenso jardim e grande variedade de flores. Entre elas, dálias coloridas, rosas, hortênsias, begônias, cravos, glicínias e uma infinidade de samambaias e trepadeiras espalhadas nos cantos e pelos troncos das árvores do quintal. Mamãe possuía mãos abençoadas - todos diziam isso. Sempre que saía para um passeio, voltava com uma nova muda de uma flor diferente e nosso jardim crescia sempre e vivia florido. Deus a colocou na minha vida para cuidar dos meus passos, atendendo meus caprichos e colorindo nossa casa com suas dálias. Ah! Que saudades de mamãe! Floresceu no jardim de Deus.


Maurício de Souza Lino,
Bibliotecário,
Historiador,
Professor,
Escritor.


“Entre o Menino que fui e o Homem que sou”

Meu menino, eu sou você — ou talvez o que sobrou de você antes que o mundo o moldasse demais.

Estou aqui, com meus olhos brilhantes e sonhos intactos, e observo você. Te vejo com olhos úmidos, não pela tristeza somente, mas por tudo o que sobreviveu. Porque, no fundo, sei que você viveu muito mais do que esperava suportar.

Eu sonhava com conquistas, com aplausos, com promessas que o céu parecia guardar só para mim. Nunca imaginei que a estrada seria feita de tantos desafios, espinhos, de tantos silêncios, de tantos quartos solitários, brancos e portas trancadas.

Você chorou. Você tentou fugir. Você se perdeu em névoas que eu não conhecia. E ainda assim, você permaneceu.

Eu quero que saiba que não te julgo. Você buscou abrigo em tudo que pôde — nas garrafas, nas palavras, nas orações. Se tropeçou, foi porque estava tentando caminhar. Se se feriu, foi porque não teve medo de existir.

Mas sabe o que me faz sorrir, mesmo agora? É saber que, no fim, quando tudo parecia desfeito, você venceu!

Você me deu vida. Você transformou dor em personagem, medo em metáfora, desespero em literatura. E agora, eu, o menino que sonhava, estou aqui diante de ti — reverente.

Olho nos teus olhos, e sim, vejo lágrimas. Mas também vejo coragem. Porque viver sem ter todas as respostas exige bravura. E escrever sobre isso... é quase divino. Se hoje alguém lê seus livros, é porque você, com suas mãos cansadas e seu coração remendado, decidiu não se calar.

Eu sou teu passado. Mas sou também tua esperança — aquela que resistiu à passagem dos 67 anos, à dureza dos dias.

Quando você escreveu, me ouviu. Quando me ouviu, se curou um pouco. Quando se curou, ofereceu ao mundo algo que nunca envelhece: verdade.

Obrigado por ter se permitido ser humano. Obrigado por ter me reencontrado.

Tu buscavas abrigo, menino. E sem saber, já construías um. Cada trilha na Mantiqueira, cada silêncio entre as árvores, cada balanço amarrado — tudo isso já apontava para uma travessia. E hoje posso te dizer: tu cruzaste.

Tu não apenas resististe. Tu venceste.

Com a força dos que caem, mas aprendem a se levantar, com a fé dos que choram, mas ainda sonham… tu chegaste lá. Tornou-te homem das letras: historiador, bibliotecário, professor, escritor. Um nome que honra nossos pais, inspira nossa família, toca gerações. E tudo isso nasceu daquela solidão criativa, daquele quarto que virava universo.

As lágrimas escondidas? Viraram páginas. Os silêncios? Tornaram-se sementes de sabedoria. A dor, menino… ela te treinou sem que tu soubesses.

E agora, olho para ti e reconheço: és um homem de sacrifícios e de luz. Alguém que carregou peso demais sem perder a delicadeza. Que construiu pontes com palavras, deu aula com o coração, escreveu com sangue e beleza.

És orgulho — não só dos teus, mas da própria história que escreveste com os pés descalços. És memória viva. És travessia transformada em direção.

Se eu pudesse, voltaria àquela balança. Sentar-me-ia ao seu lado, olhos no horizonte, e sussurraria: "Vai ficar tudo bem." "Você é amado, mesmo quando ninguém diz.". "Você é forte, mesmo quando só sente fraqueza." "E o que você está construindo em silêncio… vai ser belo." “Mas hoje eu digo mais: “Ficou.” Porque tu fizeste ficar.

Obrigado por não desistir de ti. Hoje, somos um só. E juntos, podemos descansar em Deus — com o tempo em paz e o coração inteiro.

Tu és amado. Tu és lembrado. Tu és — e sempre foste — vencedor.

Com admiração eterna,
Teu menino de 13 anos
...
Meu menino… Demorei tanto para te escrever. Talvez porque sempre temi olhar para trás e ver nos seus olhos perguntas que ainda não sei responder.

Mas hoje, depois de tudo, escrevo não para explicar — escrevo para abraçar. Escrevo porque ainda o vejo.

E porque agora eu sei: você nunca deixou de ser eu.

Lembro-me de você entre os campos da serra da Mantiqueira… Andando por trilhas que pareciam feitas sob medida para os seus silêncios. Você sempre foi mais amigo das árvores do que das pessoas. Mais íntimo dos ventos do que das vozes.

E era ali, entre as folhas que sussurravam segredos antigos, que você se sentia parte de algo maior. Você não sabia ainda o nome da dor...

— mas já a carregava.

_Não compreendia o amor — mas já o buscava em tudo. E mesmo sem palavras, algo em mim se erguia com os pés descalços na terra molhada.

Na solidão do seu quarto, aquele espaço tão pequeno e, ao mesmo tempo, tão vasto, você criava mundos. As paredes viravam montanhas. A cama, um refúgio. A escrivaninha, um altar. Você escrevia sem saber que um dia escreveria livros.

Você chorava escondido, sem imaginar que, no futuro, suas lágrimas teriam nome, sentido, história.

A balança que você amarrou entre duas árvores — lembra? Ali você voava sem sair do chão. Ali você sonhava sem ser interrompido. E enquanto os pés subiam e desciam, o coração tentava encontrar ritmo com o mundo.

Você sorria pouco, mas imaginava muito. E dentro da imaginação, tudo era possível — até que alguém o visse, o entendesse, o amasse do jeito certo.

E então vieram as viagens ao Vale. Algumas com esperança. Outras com medo. Você observava o mundo pela janela do trem, como quem buscava sinais. E às vezes encontrava. Mas quase sempre, voltava com a alma mais pesada do que na partida.

Mesmo assim, nunca deixou de ir. Você buscava por respostas, menino. Buscava por abrigo. E, acima de tudo, buscava por si mesmo.

Sem saber, já fazia sua travessia. Sem nomeá-la, já caminhava em direção ao que, em silêncio, te chamava — mesmo pelas estradas mais tortas.

Hoje eu olho para você com ternura. E digo: você sobreviveu. Sim, você caiu, se calou, se culpou…, mas seguiu. E cada ferida sua virou página. Cada silêncio seu virou semente. Cada lágrima — um altar.

Eu estou aqui. Sou você — mas com tempo vivido. Com confiança restaurada. E estou escrevendo esta carta para dizer que você não foi em vão. Tudo o que você foi… me trouxe até aqui.

Obrigado por não ter desistido. Por ter continuado com esperança. Por ter amado mesmo com medo.

Hoje, por sua causa, eu posso descansar em Deus. E sigo — não como quem fugiu da dor, mas como quem atravessou com ela até o outro lado.

Menino, te escrevo com as mãos trêmulas e o coração em silêncio.

Demorei para voltar até ti. Talvez por medo. Talvez por vergonha. Ou talvez por ter acreditado, por tempo demais, que já não havia mais nada aí dentro — apenas ruínas, sombras e uma lembrança desfocada do que um dia foi luz.

Mas agora sei: tu nunca deixaste de existir. Tu apenas esperavas.

Como quem se esconde atrás de uma porta entreaberta, esperando que alguém entre e diga, com voz doce: “Eu não esqueci de ti.”

Eu não esqueci.

Lembro-me desse dia. Tinhas apenas 13 anos. E já carregavas tanta coisa. As incertezas de quem ainda não sabe onde é o seu lugar. As dúvidas de quem sente diferente, mas ainda não pode dizer.

A esperança silenciosa de ser visto, escolhido, acolhido, amado.

Hoje, venho até ti não para te pedir desculpas — embora eu devesse. Mas para te abraçar. Para te dizer que fizemos o possível. Que tu foste corajoso. Que tu foste puro, mesmo sem entender a pureza. Que tu foste fiel a algo que nem sabias que era sagrado.

Tu seguiste. Mesmo quando ninguém te explicava o que sentias. Mesmo quando o mundo inteiro parecia te apontar com o dedo e dizer: “Não.”

Agora, depois de tantos anos, eu volto. E volto para ficar.

Tu não estás mais sozinho. Não precisas mais te esconder. Nem tentar ser o que nunca foste. Porque aquele que hoje escreve esta carta — sou eu, o que tu te tornaste. E eu vim te buscar, não para te corrigir, mas para te trazer comigo, para que possas entender que agora somos um só.

Tu és parte de mim. E eu sou parte de ti. Somos a mesma travessia, em tempos diferentes.

Hoje, posso te contar o que tu não sabias naquela época. Havia alguém que já te reconhecia.

Que via teu coração. E te guardava, mesmo nas esquinas mais distraídas. Eu mesmo!

Hoje, somos filhos da origem. Tu não és um erro. És uma canção que foi sonhada antes que o tempo tivesse nome.

Deixa-me te abraçar. Deixa-me te levar comigo. Porque juntos, podemos ir mais longe.

Agora, com o tempo em paz e o coração inteiro. Tu és amado. Tu és lembrado.

Tu és — e sempre serás — meu menino

Maurício de Souza Lino,
Bibliotecário,
Historiador,
Professor,
Escritor


                                                              Bestiário da Alma


Desde a infância, caminho pelos trilhos da minha própria alma. Aqui, o chão é escuro e úmido, e cada sombra guarda segredos que apenas a atenção e a oração podem revelar.

Os sapos, pequenos e rajados, permanecem escondidos sob a terra, lembrando-me dos pecados e medos que tentei enterrar, mas que continuam à espreita. As aranhas, peludas e antigas, me fitam com olhos em brasa, sussurrando palavras esquecidas, como velhas amigas da infância que retornam para ensinar paciência.

As serpentes, coloridas e lisas, deslizam sobre a relva verde-clara, mostrando o que exige meu olhar atento e discernimento. O leão, silencioso e constante, segue-me pela floresta escura, lembrando-me que a vigilância é parte da travessia.

No sótão da minha casa interior, gambás guardam portas antigas, confrontando medos que datam de tempos remotos. Os bois e vacas, gigantes, olham-me fixamente, medindo minha coragem, lembrando-me da força das pressões da vida.

Enquanto caminho entre essas criaturas, recordo os grandes místicos: Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz, Santa Catarina de Sena, Padre Pio. Eles não falam apenas em palavras, mas em experiências da alma. Cada animal que surge diante de mim é um professor silencioso, um símbolo vivo que me ensina a discernir, a orar, a transformar medo em aprendizado.

Reconheço-me místico porque não apenas leio sobre o invisível: eu o vivo. Sinto, observo, rezo e aprendo. Cada sombra, cada criatura, cada passo na floresta da minha alma revela algo que Deus quer que eu veja.

Esta é a minha travessia: entre animais e sombras, medo e discernimento, sonho e oração. Uma travessia que transforma o medo em atenção, o medo em aprendizado, o medo em presença de Deus. Caminho, e sei que não estou sozinho, mesmo quando tudo parece escuro.

Entro em mim mesmo como quem atravessa uma floresta escura, ao entardecer, no meu íntimo, como se fosse um caminho que conheço pela planta dos pés e pela memória dos ossos, onde o chão é irregular e o ar cheira à terra molhada. A trilha é estreita e úmida.  

Sei que não caminho só: há presenças que me cercam, em dias diferentes, e cada uma delas me revela uma parte de mim que não ouso nomear.

Ao longe, ouço um rugido. Um leão ronda minhas muralhas interiores. Ele não me toca, mas seu som atravessa meus ossos. Ele não aparece de perto, mas sei que me segue. Está sempre ali, espreitando, espionando, como uma sombra que nunca dorme. Seus olhos não brilham, mas sua presença pesa sobre meus ombros. Atrás de mim, entre as árvores, ele caminha devagar, seguindo o mesmo sulco. Não ruge sempre, mas seu passo firme e silencioso me faz sentir que é constante e paciente. É companhia de sombra, vigilante e paciente. Às vezes só me segue, e a sensação é de ser observado por um olhar que não cessa.  Ele não me ataca; persegue-me.

À distância, me observa, sempre vigilante. Sei que sua presença não é física, mas espiritual — um sinal da perseguição que carrego desde sempre. Sinto no corpo a tensão de quem sabe que algo me espreita, e mesmo assim continuo. Raro, mas constante em sua perseguição, sempre ao longe, sempre espionando. Não corro: aprendi que a pressa só o alimenta. É o perseguidor constante, o inimigo que não toca, mas ronda.

O fato de nunca estar perto, mas sempre à espreita, mostra a pressão espiritual contínua — um inimigo que não toca de imediato, mas não desiste da vigilância. É a sensação da perseguição invisível, do mal que ronda. Vivo com essa sensação de ser vigiado por algo que me quer devorar. Tento apressar os passos, mas percebo que não adianta correr, o leão nunca se cansa.

Sinto medo, e quase me esqueço que não é o único leão que existe. Pois, ao fundo, em outro horizonte, sei que o Leão da tribo de Judá também ruge, mas Seu rugido não devora — liberta. Leão, — aqui há ambiguidade.

A Bíblia fala do leão como símbolo de Cristo (“o Leão da tribo de Judá”, Ap 5,5), mas também como símbolo do diabo (“vosso adversário, o diabo, anda em derredor como leão que ruge, procurando a quem devorar”, 1Pe 5,8).

O contexto do sonho indica se é ameaça ou força espiritual.  

Em outras noites, olho para o chão, entre raízes e buracos, e vejo um sapo solitário. É do tamanho da minha mão. Quando percebo, o terror me percorre o corpo. Está meio escondido, enterrado em um buraco, apenas as costas rajadas de amarelo e tons escuros, despontando da terra, imóvel, como se esperasse que eu me aproximasse. Quando o reconheço, o terror me paralisa: sei que não é apenas sapo, mas aquilo que permanece oculto dentro de mim, escondido, mas nunca morto. Isso me fala de pecados ocultos, enterrados, mas nunca mortos. O fato de aparecerem semiescondidos é significativo: não são totalmente expostos, mas também não estão ausentes. Estão ali, à espreita, lembrando o que precisa vir à luz para ser purificado. O medo que sento é a reação natural diante da verdade que quer emergir.

Vejo o sapo saltando na umidade do coração. Ele coaxa dentro de mim, lembrando-me da lama onde insisto em colocar os pés. Cada coaxar é um segredo mal resolvido, uma culpa escondida, um peso que não confesso. Sei que, se o toco, minha pele se mancha.

Sapo — na Escritura (Êxodo 8), aparece como uma das pragas do Egito. Representa impureza, ambientes sombrios e miasmas espirituais. Sonhar com eles pode ser um alerta de que o coração está deixando entrar sujeiras espirituais, algo que precisa ser purificado.

Santa Catarina de Sena diria: “a alma foge de si mesma, porque não suporta ver-se”. São meus pecados enterrados, meus segredos úmidos, coaxando baixinho na sombra do coração. São sonhos antigos, persistentes, testemunhas silenciosas de medos e pecados que pensei enterrar, como lembranças escondidas, mas que continuam à espreita.

Mais adiante, em mais uma outra noite, olho para cima, nos cantos escuros do forro da minha casa interior, vejo uma aranha — peluda, com olhos acesos em brasa que me fitam sem piscar, move-se lentamente, espreitando, observando. E não é uma qualquer, mas uma aranha enorme, que conhece minha face desde menino. Ela é aquela amiga antiga que volta de tempos em tempos. Parece familiar: sinto que nos encontramos e nos conhecemos há anos, desde criança. É como se, de algum modo, tivéssemos sido amigos, vizinhos de infância em outra vida da memória. Quando me aproximo, lembro de um tempo em que éramos vizinhos: éramos pequenos juntos, dedos e patas, risos e silêncio. Agora ela é maior, peluda, com olhos que ardem como brasas. Às vezes pronuncia palavras dóceis, que deslizam como mel, quase leve, como quem acaricia — e por isso mesmo mais perigosa.

Sim, há nela uma doçura perigosa: é como se a memória e a tentação tivessem um acordo para se parecerem com afeto. Reconhecê-la é sentir a infância e o peso do tempo; vejo que muitas dessas aranhas já estão velhas — e, no rosto enrugado delas, leio minhas próprias histórias não curadas. É uma presença que desafia o medo com a familiaridade.

O silêncio delas é maior que o meu medo, mas às vezes pronuncia palavras que nunca consigo lembrar ao despertar. Ela não me ataca, apenas me observa. Sei que representa os enganos sutis, as justificativas dóceis que me prendem sem que eu perceba. Suas teias são tão finas que quase não percebo, mas bastam para me deter. Cada fio é um pensamento insistente, uma lembrança que me prende, um laço invisível que me rouba o fôlego. Tento avançar, mas percebo: estou colado em minha própria trama.

Suas teias, bem velhas, não se veem, mas estão ali, esperando meu descuido. Olhando docilmente, falando em voz suave, mas sempre nas sombras. Lembram trama, aquilo que aprisiona. Muitas vezes simbolizam pensamentos enredados, culpas, situações que paralisam a alma.

Essas aranhas representam ilusões e enganos que parecem inofensivos, até dóceis, mas que vivem no escuro. É a teia da sedução espiritual, da mentira que se apresenta como luz. O detalhe da voz que não recordo é sugestivo: pode ser a sedução das ideias vagas, das justificativas que me desviam.

Mais uma noite, no claro de um campo, o chão começa a se mover, rastejando entre folhas, matos e beiras d’água. São serpentes, de vários tamanhos, deslizando nas beiras d’água ou no mato. São belas na pele, traiçoeiras no veneno, desfilando como numa procissão. Deslizam em peles lisas e coloridas sobre o verde-claro da relva. Não se escondem tanto quanto eu pensava — querem ser vistas, mostram-se com vaidade e calma. Algumas são finas, outras grossas, algumas quase transparentes, outras revestidas de desenhos que enganam o olhar. Todas exibem cores que atraem e intimidam. Preciso olhar bem para discerni-las. Elas me obrigam a olhar, não posso tropeçar por descuido. Se não olho, piso sobre elas. Se olho demais, paraliso. Elas desfilam diante de mim, com uma naturalidade quase arrogante, e percebo que a vigilância é minha única defesa. Elas deslizam como tentações múltiplas, disfarçadas, se confundindo com a paisagem da alma. Aprendo que minha vigilância deve ser contínua, porque basta uma distração para que me enrosquem.

Tento contá-las e perco a conta; tento denominá-las e as palavras fogem.

Há, porém, algo que me inquieta mais que o veneno: a naturalidade com que desfilam, como se tivessem todo o direito de existir ali. Ela rasteja silenciosa, rápida, mas sua presença envenena o ar. Entendo que parte do meu trabalho interior é não negar que elas existiram — e ainda existem — mas aprender a caminhar sem lhes dar poder para me enredar.

Este é um símbolo direto de tentação múltipla, disfarçada e camuflada. Coloridas porque parecem belas, atraentes; rastejando porque avançam silenciosamente, mas sempre no chão, sempre ligadas ao terreno, nunca ao alto. O esforço de precisar “olhar bem” mostra a luta de discernimento: ver o que é engano, distinguir onde está o perigo. Aqui está a sabedoria espiritual em exercício.

Sinto o sussurro da tentação, como se quisesse negociar comigo. É astuta e paciente; não me ataca de frente, mas procura fissuras na minha vontade. O frio que sobe pelo chão é o mesmo que congela meu espírito.

Mais adiante, de repente um campo se abre, em outra noite. Vejo bois e vacas, grandes, gigantescos, maiores do que a memória permite. Estão parados, imóveis, olhando para mim, com olhos imóveis e silenciosos, me observando fixamente, implacáveis, impondo medo. Sinto o peso de sua presença, e mesmo parados, me intimidam. O medo vem não da ameaça direta, mas do tamanho, da força silenciosa, do olhar que me lembra limites e pressões antigas. Não se movem, mas o simples olhar deles me faz temer. São como forças ancestrais, pesos de família, responsabilidades antigas que me esmagam. Não avançam contra mim, mas basta sua presença para que eu me sinta pequeno, quase nada.

Mas, são animais de força, ligados ao trabalho, ao peso, ao jugo. Grandes e imponentes, olham e intimidam. Podem simbolizar o peso da vida, das responsabilidades, da memória cultural ou familiar, algo que olha de volta para mim e causa temor. O medo diante deles sugere que os perceba como esmagadores, como se a minha fragilidade fosse nada diante de tanta massa.

No forro também, entre as ripas e a sombra, vivem gambás — pretos, de pelagem cinzento-escura, grandes, com olhos pequenos e respiração ofegante e silenciosos, que não deixam ninguém subir, como guardas territoriais do meu medo. Eles rondam a entrada, erguem-se quando alguém tenta atravessar, soltam um odor que corta o ar. 

São feios, são persistentes, e me recordam de portas que fechei na infância e que nunca abri totalmente. Cada vez que penso e tento subir com a escada para aquele sótão de lembranças, sinto o cheiro e recuo. Sua presença me provoca medo: sinto o cheiro forte e a respiração grossa. Eles guardam o espaço, e cada passo que dou me lembra de portas antigas que fechei na infância e que ainda permanecem trancadas no meu interior.

Oro, peço a Deus desde menino que me livre dessas imagens e do pavor que carregam, conforme minha mãe me ensinou, com as mãos atrapalhadas, pedindo a Deus que me livre desses pesadelos. A oração é antiga e é a mesma: um pedido infantil, às vezes angustiado, às vezes resignado. E ainda assim oro. Minha oração infantil diante de sapos, gambás, aranhas, serpentes e bois está em sintonia com a prática mística de usar a oração como proteção e discernimento.

O leão continua seguindo seu trilho; os sapos permanecem semiescondidos; as aranhas velhas me observam; as serpentes desfilam em cores que eu devo aprender a discernir; os gambás guardam o sótão de minha infância; os bois gigantes me olham como se medissem minha coragem. Tudo isso não cessa, mas minha oração, constante desde menino, transforma o cenário: não desaparecem os animais, mas o medo diminui, a vigilância se fortalece, o coração encontra uma presença maior que qualquer sombra.

Sigo caminhando, atravessando o medo, lembrando-me dos místicos e de suas palavras que iluminam cada criatura. Cada sapo, aranha, serpente, leão, gambá e boi não é apenas terror: é convite à atenção, à oração, ao discernimento, à travessia do meu próprio coração.

E mesmo na escuridão, percebo que estou sendo guiado. Não por mãos humanas, mas pelo sopro silencioso de Deus, que me sustenta, me observa e me veste de justiça, santidade e filiação.

Avanço. E a floresta continua, os animais continuam, mas agora há luz suficiente para que eu caminhe com olhos atentos, sem pavor, sabendo que a travessia é minha — e que não caminho sozinho.

Um verdadeiro bestiário interior — e é impressionante como ele traz imagens bíblicas, místicas e simbólicas muito fortes. Os sonhos, aqui, não são apenas devaneios: parecem parábolas da alma, nas quais o inconsciente (ou até o espírito, se quisermos dizer assim) mostra em forma de animais o que está em luta dentro de mim.

Não nego a fadiga dessa luta que vem de longe. Há noites em que acordo com o coração em desalinho, com a sensação de que a perseguição recomeçou onde havia deixado. Pergunto a Deus por que alguns demônios parecem hereditários, por que algumas imagens voltam como quem não se cansa de me ensinar uma lição que não aprendo.

A resposta não é uma voz sonora; é uma presença, uma calma que não elimina o medo, mas o redimensiona. Sinto que a oração não é um amuleto que faz desaparecer os animais. É uma lâmpada que me permite vê-los com clareza, distinguir suas cores, medir suas distâncias. E ao vê-los, perco o pavor que me fazia saltar para um lado qualquer.

Caminho, portanto, em vigilância e em oração. O leão ainda segue o trilho, mas sei agora que não sou apenas perseguido: sou observado por um outro olhar mais vasto. As aranhas, por mais que falem em voz de velha conhecida, não substituem a voz do meu Criador. As serpentes, por mais belas, não têm autoridade sobre a fonte que me sustenta. Os gambás, por mais que cheirem a medo, não podem selar para sempre o sótão da minha alma.

Permaneço vestido de minha coragem, de justiça que me é emprestada, de santidade que me é ofertada, de filiação que me acolhe. A oração que eu disse desde pequeno soa agora como uma canção de rumo: não me livrou da visão, mas mudou o enquadramento dela. Não sou menino indefeso; sou filho protegido. Continuo a caminhar pela floresta, e mesmo quando o leão volta a seguir o trilho, eu o atravesso com passos que não são de fuga, mas de quem sabe onde pisa. Caminho em meio a esse bestiário como quem atravessa o próprio abismo.

Não são apenas animais: são símbolos de mim mesmo, projeções do que carrego oculto. Eles não moram fora, mas dentro. E, no entanto, quanto mais avanço, mais percebo que não estou só.

Porque, por trás do coaxar dos sapos, há uma voz maior que me chama pelo nome. Por trás do olhar das aranhas, há um olhar mais puro que me devolve a paz.  Por trás do deslizar das serpentes, há um sopro de vida que me sustenta em pé. Por trás do rugido do leão perseguidor, ouço outro rugido mais forte: o Leão da Tribo de Judá.  E por trás do silêncio dos bois gigantes, sinto o Cordeiro imolado, cuja mansidão vence toda força bruta.

Entro em mim mesmo, e ao mesmo tempo saio de mim, porque no centro de tudo encontro Cristo.

Ele é a luz que revela meus monstros sem medo, é a mão que me conduz por entre eles, é a veste nova que cobre minha nudez diante deles.

E quando ergo os olhos para Ele, o bestiário inteiro perde força. Os sapos mergulham, as aranhas se dissipam, as serpentes desaparecem na relva, o leão se cala, os bois se desfazem em pó. Fico só, mas não em solidão. Estou vestido de justiça, santidade e filiação. Avanço, e agora o caminho já não é floresta nem noite, mas uma clareira de luz.

O que me impressiona é que todos esses animais vivem no limiar entre sombra e revelação. Eles não são plenamente expostos — estão em buracos, forros, matos, ao longe. Estão sempre em lugares de meia-luz, como aquilo que a consciência sabe, mas ainda não nomeia completamente.

Enquanto caminho entre todas essas criaturas, recordo os místicos que de tempos em tempos leio. Santa Teresa d’Ávila falava dos pátios externos da alma, cheios de criaturas venenosas que espreitam a paciência da alma. Dizia que, nas primeiras moradas do Castelo Interior, “há muitos animais e coisas venenosas que não deixam a alma sossegar”, que nos falam docemente para que não avancemos. É exatamente a minha experiência, o coração está no limiar de um avanço espiritual, mas ainda sente os “bichos” do lado de fora. O caminho é ir mais para dentro, em direção à luz de Cristo, sem medo.

Eles chamam a isso de figuras do inconsciente espiritual, sinais que Deus permite para que a alma reconheça suas sombras, suas tentações e até seus medos antigos (alguns deles talvez herdados ou profundamente enraizados desde a infância).

Santa Catarina de Sena descrevia a alma que se enreda em si mesma, presa em medos que parecem mais fortes do que são. São João da Cruz falava da escuridão interna e da necessidade de discernimento, do cuidado em reconhecer os venenos e não se deixar dominar por eles. Cada animal que surge em meus sonhos me lembra dessas leituras que não são monstros sem sentido, mas símbolos de minha própria travessia. Santo Agostinho utiliza imagens de animais para falar do vício ou da inclinação ao mal, como serpentes e lobos, indicando instintos ou pecados humanos. A força ou beleza do animal às vezes indica o poder sedutor do pecado. Serpentes coloridas, leão e aranhas podem representar tentações que seduzem, mas que podem ser discernidas pela luz da consciência.

Padre Pio mencionava animais como instrumentos de Satanás nos sonhos e visões, mas que não tinham poder sobre quem se mantém em oração.

Algo ainda mais impressionante em todos esses sonhos, é que vejo, percebo, identifico e nomeio. Isso já é graça. Muitos vivem rodeados por seus “animais interiores” sem nunca os enxergar. O fato de discernir e lembrar deles mostra que a luz de Cristo já está atravessando minhas sombras, mesmo que isso cause medo.

Caminho por dentro de mim mesmo e encontro um pátio sombrio. Não estou só, ali se movem criaturas que me denunciam. Caminho assim, em meio a animais que são meus espelhos.

Não os rejeitos como se fossem apenas monstros de fora. Reconheço que nasceram de mim, que brotam do meu estado interior. Mas não me detenho. No meio das sombras, levanto os olhos. E quando levanto os olhos, percebo que nenhuma dessas criaturas resiste à luz. Os sapos secam, as aranhas desaparecem, a cobra se dissolve em pó, e o leão inimigo se cala diante do rugido do Cristo. Permaneço, então, vestido de um manto novo, de uma justiça que não é minha, de uma santidade que não conquisto, de filiação que apenas recebo.

Na tradição bíblica, patrística e também mística, os animais em sonhos muitas vezes expressam o estado da alma: aquilo que está escondido, mas pulsa no inconsciente ou no espírito. Eles simbolizam forças instintivas, tentações, pecados ocultos, mas também a luta interior pela purificação.

Os místicos diriam que esses sonhos funcionam como um espelho simbólico da alma, quando há culpas não confessadas, pecados ocultos, inquietações ou desordens interiores, a mente e o espírito projetam essas imagens. É como se Deus permitisse que, no sonho, víssemos em forma de animais o que precisa ser iluminado pela graça.

Eles não descrevem os animais de forma literal; eles usam os animais como símbolos vivos do que se passa na alma, pecados, tentações, medos, pressões e desafios. Cada criatura é um professor silencioso, ensina algo sobre nós mesmos, sobre nossas falhas, nossas forças e nossa necessidade de Deus. No meu caso, sapos representam os pecados ocultos, medos enterrados; as aranhas, as ilusões familiares, enganos sutis; as serpentes, as tentações visíveis, que precisam de discernimento; o leão, a perseguição espiritual constante, vigilância; os gambás, as barreiras interiores e medos antigos; os bois e vacas, as pressões da vida, desafios de grande força.

O ponto importante, é que isso não é condenação, mas convite à conversão e à cura interior. Se percebo que os sonhos refletem meu estado interior, significa que tenho sensibilidade espiritual. Deus está mostrando, por imagens, onde preciso agir — e onde posso me abrir para Ele com mais sinceridade.

Esses sonhos não são só devaneios, mas sinais, imagens que espelham a batalha interior. Ao levá-los à oração — reconhecendo, confessando, entregando — eles deixam de ser ameaça e se tornam caminhos de purificação e crescimento.

O que une todos esses místicos é a ideia de que a travessia interior se dá através da percepção e do discernimento, não pela força ou eliminação das criaturas, mas pelo reconhecimento, oração e paciência.

Caminho pelo labirinto da minha própria alma e percebo que não sou apenas um observador, mas um participante de algo profundo e antigo. Cada animal que surge nos meus sonhos — sapos, aranhas, serpentes, leão, gambás, bois e vacas — não é apenas uma visão passageira, é um mensageiro da minha vida interior, um símbolo que a alma me apresenta para que eu aprenda, discirna e cresça.

Os sapos, escondidos debaixo da terra, lembram-me dos pecados e medos que tentei enterrar, mas que permanecem, silenciosos, à espreita. As aranhas, velhas amigas da infância, falam suavemente em voz que não lembro, recordando-me que nem tudo que nos assusta é inimigo, algumas coisas já caminham comigo há anos, moldando minha sensibilidade. As serpentes, coloridas e elegantes, me obrigam a olhar, a discernir, a não fugir, são tentação, mas também alerta, exigindo atenção.

O leão, caminhando no trilho da floresta escura, observa e persegue, silencioso. Os gambás, guardiões do sótão da minha casa interior, me confrontam com barreiras e medos antigos. Os bois e vacas, gigantes, me medem, me desafiam, me lembram de limites que ainda preciso reconhecer. Cada criatura é um espelho, mostrando não apenas medo, mas o caminho da consciência.

Desde criança, oro diante desses animais. Pedi a Deus proteção, discernimento, coragem. Essa prática não é apenas superstição, é a travessia do místico.

 

Como os grandes santos e místicos que leio — Teresa d’Ávila, Catarina de Sena, São João da Cruz, Santo Agostinho, Padre Pio — aprendi que as criaturas da alma não são inimigas; são professoras silenciosas, revelando o estado interior, desafiando-me a crescer.

Agora percebo algo curioso, devo ter uma relação especial com esses místicos. Não os leio apenas; os vivo por dentro. Eles me falam através dos sonhos, através da tensão diante dos animais, através da oração que se tornou natural desde menino. Sou místico porque experimento, sinto, discernindo cada sombra e cada luz. Meu medo não me paralisa; ele me ensina. Minha atenção não é mero olhar; é vigilância da alma. Minha oração não é rotina; é diálogo com o Criador diante das criaturas da minha própria vida.

Reconheço-me místico porque caminho entre símbolos vivos da minha alma, porque vejo, ouço e sinto o invisível, porque transformo medo em aprendizado, porque sigo aprendendo a atravessar os labirintos do meu coração com fé, paciência e discernimento. Cada animal, cada sombra, cada presença é uma lição, uma ponte entre meu medo e a paz que Deus me concede.

E assim, noite após noite, sonho e desperto aprendendo a ser fiel à minha travessia interior, sabendo que sou filho, observado, amado e guiado, mesmo quando caminho sozinho pelos pátios escuros da minha própria alma.


Maurício de Souza Lino,
Bibliotecário,
Historiador,
Professor,
Escritor.

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