Era um dia chuvoso de domingo, quando a luz suave do entardecer atravessava as cortinas semiabertas, criando um clima de melancolia no aconchego do meu lar. Nesse cenário nostálgico, mergulhado em um turbilhão de pensamentos, uma ideia brilhante e inusitada surgiu em minha mente: ler. Avistei a estante repleta de livros que, ao longo dos anos, foram meus fiéis companheiros de aventuras e conhecimento.Campos do Jordão, no alto da Serra da Mantiqueira, é um lugar onde a natureza se veste de beleza em todas as estações, mas é no inverno que ela exibe um espetáculo de rara poesia. Esta semana, os campos, jardins e gramados da cidade foram cobertos por uma geada intensa, um fenômeno que nos faz lembrar das palavras do Salmo 147: "Ele... é quem esparge a geada como cinza...".
Bom dia. Hoje, trouxe dálias!
No jardim de nossa casa em Vila
Guarani, mamãe cultivava dálias, muitas dálias. Eram as suas flores prediletas.
Qual a sua flor favorita? Mamãe tinha uma queda pelas dálias. As brancas
então... seu coração batia forte! As flores prediletas fazem um bem enorme para
a alma. É só bater o olho nela que a gente sorri por dentro.
Dália é uma flor que lembra a
minha infância. Mamãe tinha muitas espécies e a cada ano enterrava mais alguns
bulbos na terra que ela recebia de uma vizinha, comadre ou amiga. Mamãe
retirava e juntava as cinzas do fogão à lenha e, posteriormente, utilizava como
adubo no cultivo da flor. Eu me lembro que era de fácil cultivo e o resultado
me fascinava. Dálias lindas, carismáticas e imponentes.
Sempre que vejo uma dália
florescida, me lembro de mamãe. Se pudesse, certamente a levaria para dentro de
casa e a colocaria num vaso. Nossa casa tinha um imenso jardim e grande
variedade de flores. Entre elas, dálias coloridas, rosas, hortênsias, begônias,
cravos, glicínias e uma infinidade de samambaias e trepadeiras espalhadas nos
cantos e pelos troncos das árvores do quintal. Mamãe possuía mãos abençoadas -
todos diziam isso. Sempre que saía para um passeio, voltava com uma nova muda
de uma flor diferente e nosso jardim crescia sempre e vivia florido. Deus a
colocou na minha vida para cuidar dos meus passos, atendendo meus caprichos e
colorindo nossa casa com suas dálias. Ah! Que saudades de mamãe! Floresceu no
jardim de Deus.
Meu menino, eu sou você — ou talvez o que sobrou de você antes que o mundo o moldasse demais.
Estou aqui, com meus olhos brilhantes e sonhos intactos, e observo você. Te vejo com olhos úmidos, não pela tristeza somente, mas por tudo o que sobreviveu. Porque, no fundo, sei que você viveu muito mais do que esperava suportar.
Eu sonhava com conquistas, com aplausos, com promessas que o céu parecia guardar só para mim. Nunca imaginei que a estrada seria feita de tantos desafios, espinhos, de tantos silêncios, de tantos quartos solitários, brancos e portas trancadas.
Você chorou. Você tentou fugir. Você se perdeu em névoas que eu não conhecia. E ainda assim, você permaneceu.
Eu quero que saiba que não te julgo. Você buscou abrigo em tudo que pôde — nas garrafas, nas palavras, nas orações. Se tropeçou, foi porque estava tentando caminhar. Se se feriu, foi porque não teve medo de existir.
Mas sabe o que me faz sorrir, mesmo agora? É saber que, no fim, quando tudo parecia desfeito, você venceu!
Você me deu vida. Você transformou dor em personagem, medo em metáfora, desespero em literatura. E agora, eu, o menino que sonhava, estou aqui diante de ti — reverente.
Olho nos teus olhos, e sim, vejo lágrimas. Mas também vejo coragem. Porque viver sem ter todas as respostas exige bravura. E escrever sobre isso... é quase divino. Se hoje alguém lê seus livros, é porque você, com suas mãos cansadas e seu coração remendado, decidiu não se calar.
Eu sou teu passado. Mas sou também tua esperança — aquela que resistiu à passagem dos 67 anos, à dureza dos dias.
Quando você escreveu, me ouviu. Quando me ouviu, se curou um pouco. Quando se curou, ofereceu ao mundo algo que nunca envelhece: verdade.
Obrigado por ter se permitido ser humano. Obrigado por ter me reencontrado.
Tu buscavas abrigo, menino. E sem saber, já construías um. Cada trilha na Mantiqueira, cada silêncio entre as árvores, cada balanço amarrado — tudo isso já apontava para uma travessia. E hoje posso te dizer: tu cruzaste.
Tu não apenas resististe. Tu venceste.
Com a força dos que caem, mas aprendem a se levantar, com a fé dos que choram, mas ainda sonham… tu chegaste lá. Tornou-te homem das letras: historiador, bibliotecário, professor, escritor. Um nome que honra nossos pais, inspira nossa família, toca gerações. E tudo isso nasceu daquela solidão criativa, daquele quarto que virava universo.
As lágrimas escondidas? Viraram páginas. Os silêncios? Tornaram-se sementes de sabedoria. A dor, menino… ela te treinou sem que tu soubesses.
E agora, olho para ti e reconheço: és um homem de sacrifícios e de luz. Alguém que carregou peso demais sem perder a delicadeza. Que construiu pontes com palavras, deu aula com o coração, escreveu com sangue e beleza.
És orgulho — não só dos teus, mas da própria história que escreveste com os pés descalços. És memória viva. És travessia transformada em direção.
Se eu pudesse, voltaria àquela balança. Sentar-me-ia ao seu lado, olhos no horizonte, e sussurraria: "Vai ficar tudo bem." "Você é amado, mesmo quando ninguém diz.". "Você é forte, mesmo quando só sente fraqueza." "E o que você está construindo em silêncio… vai ser belo." “Mas hoje eu digo mais: “Ficou.” Porque tu fizeste ficar.
Obrigado por não desistir de ti. Hoje, somos um só. E juntos, podemos descansar em Deus — com o tempo em paz e o coração inteiro.
Tu és amado. Tu és lembrado. Tu és — e sempre foste — vencedor.
Com admiração eterna,
Teu menino de 13 anos
...
Meu menino… Demorei tanto para te escrever. Talvez porque sempre temi olhar para trás e ver nos seus olhos perguntas que ainda não sei responder.
Mas hoje, depois de tudo, escrevo não para explicar — escrevo para abraçar. Escrevo porque ainda o vejo.
E porque agora eu sei: você nunca deixou de ser eu.
Lembro-me de você entre os campos da serra da Mantiqueira… Andando por trilhas que pareciam feitas sob medida para os seus silêncios. Você sempre foi mais amigo das árvores do que das pessoas. Mais íntimo dos ventos do que das vozes.
E era ali, entre as folhas que sussurravam segredos antigos, que você se sentia parte de algo maior. Você não sabia ainda o nome da dor...
— mas já a carregava.
_Não compreendia o amor — mas já o buscava em tudo. E mesmo sem palavras, algo em mim se erguia com os pés descalços na terra molhada.
Na solidão do seu quarto, aquele espaço tão pequeno e, ao mesmo tempo, tão vasto, você criava mundos. As paredes viravam montanhas. A cama, um refúgio. A escrivaninha, um altar. Você escrevia sem saber que um dia escreveria livros.
Você chorava escondido, sem imaginar que, no futuro, suas lágrimas teriam nome, sentido, história.
A balança que você amarrou entre duas árvores — lembra? Ali você voava sem sair do chão. Ali você sonhava sem ser interrompido. E enquanto os pés subiam e desciam, o coração tentava encontrar ritmo com o mundo.
Você sorria pouco, mas imaginava muito. E dentro da imaginação, tudo era possível — até que alguém o visse, o entendesse, o amasse do jeito certo.
E então vieram as viagens ao Vale. Algumas com esperança. Outras com medo. Você observava o mundo pela janela do trem, como quem buscava sinais. E às vezes encontrava. Mas quase sempre, voltava com a alma mais pesada do que na partida.
Mesmo assim, nunca deixou de ir. Você buscava por respostas, menino. Buscava por abrigo. E, acima de tudo, buscava por si mesmo.
Sem saber, já fazia sua travessia. Sem nomeá-la, já caminhava em direção ao que, em silêncio, te chamava — mesmo pelas estradas mais tortas.
Hoje eu olho para você com ternura. E digo: você sobreviveu. Sim, você caiu, se calou, se culpou…, mas seguiu. E cada ferida sua virou página. Cada silêncio seu virou semente. Cada lágrima — um altar.
Eu estou aqui. Sou você — mas com tempo vivido. Com confiança restaurada. E estou escrevendo esta carta para dizer que você não foi em vão. Tudo o que você foi… me trouxe até aqui.
Obrigado por não ter desistido. Por ter continuado com esperança. Por ter amado mesmo com medo.
Hoje, por sua causa, eu posso descansar em Deus. E sigo — não como quem fugiu da dor, mas como quem atravessou com ela até o outro lado.
Menino, te escrevo com as mãos trêmulas e o coração em silêncio.
Demorei para voltar até ti. Talvez por medo. Talvez por vergonha. Ou talvez por ter acreditado, por tempo demais, que já não havia mais nada aí dentro — apenas ruínas, sombras e uma lembrança desfocada do que um dia foi luz.
Mas agora sei: tu nunca deixaste de existir. Tu apenas esperavas.
Como quem se esconde atrás de uma porta entreaberta, esperando que alguém entre e diga, com voz doce: “Eu não esqueci de ti.”
Eu não esqueci.
Lembro-me desse dia. Tinhas apenas 13 anos. E já carregavas tanta coisa. As incertezas de quem ainda não sabe onde é o seu lugar. As dúvidas de quem sente diferente, mas ainda não pode dizer.
A esperança silenciosa de ser visto, escolhido, acolhido, amado.
Hoje, venho até ti não para te pedir desculpas — embora eu devesse. Mas para te abraçar. Para te dizer que fizemos o possível. Que tu foste corajoso. Que tu foste puro, mesmo sem entender a pureza. Que tu foste fiel a algo que nem sabias que era sagrado.
Tu seguiste. Mesmo quando ninguém te explicava o que sentias. Mesmo quando o mundo inteiro parecia te apontar com o dedo e dizer: “Não.”
Agora, depois de tantos anos, eu volto. E volto para ficar.
Tu não estás mais sozinho. Não precisas mais te esconder. Nem tentar ser o que nunca foste. Porque aquele que hoje escreve esta carta — sou eu, o que tu te tornaste. E eu vim te buscar, não para te corrigir, mas para te trazer comigo, para que possas entender que agora somos um só.
Tu és parte de mim. E eu sou parte de ti. Somos a mesma travessia, em tempos diferentes.
Hoje, posso te contar o que tu não sabias naquela época. Havia alguém que já te reconhecia.
Hoje, somos filhos da origem. Tu não és um erro. És uma canção que foi sonhada antes que o tempo tivesse nome.
Deixa-me te abraçar. Deixa-me te levar comigo. Porque juntos, podemos ir mais longe.
Agora, com o tempo em paz e o coração inteiro. Tu és amado. Tu és lembrado.
Tu és — e sempre serás — meu menino
Desde a infância, caminho pelos trilhos da minha própria alma. Aqui, o chão é escuro e úmido, e cada sombra guarda segredos que apenas a atenção e a oração podem revelar.
Os sapos, pequenos e rajados, permanecem escondidos sob a terra, lembrando-me dos pecados e medos que tentei enterrar, mas que continuam à espreita. As aranhas, peludas e antigas, me fitam com olhos em brasa, sussurrando palavras esquecidas, como velhas amigas da infância que retornam para ensinar paciência.
As serpentes, coloridas e lisas, deslizam sobre a relva verde-clara, mostrando o que exige meu olhar atento e discernimento. O leão, silencioso e constante, segue-me pela floresta escura, lembrando-me que a vigilância é parte da travessia.
No sótão da minha casa interior, gambás guardam portas antigas, confrontando medos que datam de tempos remotos. Os bois e vacas, gigantes, olham-me fixamente, medindo minha coragem, lembrando-me da força das pressões da vida.
Enquanto caminho entre essas criaturas, recordo os grandes místicos: Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz, Santa Catarina de Sena, Padre Pio. Eles não falam apenas em palavras, mas em experiências da alma. Cada animal que surge diante de mim é um professor silencioso, um símbolo vivo que me ensina a discernir, a orar, a transformar medo em aprendizado.
Reconheço-me místico porque não apenas leio sobre o invisível: eu o vivo. Sinto, observo, rezo e aprendo. Cada sombra, cada criatura, cada passo na floresta da minha alma revela algo que Deus quer que eu veja.
Esta é a minha travessia: entre animais e sombras, medo e discernimento, sonho e oração. Uma travessia que transforma o medo em atenção, o medo em aprendizado, o medo em presença de Deus. Caminho, e sei que não estou sozinho, mesmo quando tudo parece escuro.
Entro em mim mesmo como quem
atravessa uma floresta escura, ao entardecer, no meu íntimo, como se fosse um
caminho que conheço pela planta dos pés e pela memória dos ossos, onde o chão é
irregular e o ar cheira à terra molhada. A trilha é estreita e úmida.
Sei que não caminho só: há
presenças que me cercam, em dias diferentes, e cada uma delas me revela uma
parte de mim que não ouso nomear.
Ao longe, ouço um rugido. Um leão
ronda minhas muralhas interiores. Ele não me toca, mas seu som atravessa meus
ossos. Ele não aparece de perto, mas sei que me segue. Está sempre ali,
espreitando, espionando, como uma sombra que nunca dorme. Seus olhos não
brilham, mas sua presença pesa sobre meus ombros. Atrás de mim, entre as árvores,
ele caminha devagar, seguindo o mesmo sulco. Não ruge sempre, mas seu passo
firme e silencioso me faz sentir que é constante e paciente. É companhia de
sombra, vigilante e paciente. Às vezes só me segue, e a sensação é de ser
observado por um olhar que não cessa.
Ele não me ataca; persegue-me.
À distância, me observa, sempre
vigilante. Sei que sua presença não é física, mas espiritual — um sinal da
perseguição que carrego desde sempre. Sinto no corpo a tensão de quem sabe que
algo me espreita, e mesmo assim continuo. Raro, mas constante em sua
perseguição, sempre ao longe, sempre espionando. Não corro: aprendi que a
pressa só o alimenta. É o perseguidor constante, o inimigo que não toca, mas
ronda.
O fato de nunca estar perto, mas
sempre à espreita, mostra a pressão espiritual contínua — um inimigo que não
toca de imediato, mas não desiste da vigilância. É a sensação da perseguição
invisível, do mal que ronda. Vivo com essa sensação de ser vigiado por algo que
me quer devorar. Tento apressar os passos, mas percebo que não adianta correr,
o leão nunca se cansa.
Sinto medo, e quase me esqueço
que não é o único leão que existe. Pois, ao fundo, em outro horizonte, sei que
o Leão da tribo de Judá também ruge, mas Seu rugido não devora — liberta. Leão,
— aqui há ambiguidade.
A Bíblia fala do leão como
símbolo de Cristo (“o Leão da tribo de Judá”, Ap 5,5), mas também como símbolo
do diabo (“vosso adversário, o diabo, anda em derredor como leão que ruge,
procurando a quem devorar”, 1Pe 5,8).
O contexto do sonho indica se é
ameaça ou força espiritual.
Em outras noites, olho para o
chão, entre raízes e buracos, e vejo um sapo solitário. É do tamanho da minha
mão. Quando percebo, o terror me percorre o corpo. Está meio escondido,
enterrado em um buraco, apenas as costas rajadas de amarelo e tons escuros,
despontando da terra, imóvel, como se esperasse que eu me aproximasse. Quando o
reconheço, o terror me paralisa: sei que não é apenas sapo, mas aquilo que
permanece oculto dentro de mim, escondido, mas nunca morto. Isso me fala de
pecados ocultos, enterrados, mas nunca mortos. O fato de aparecerem semiescondidos
é significativo: não são totalmente expostos, mas também não estão ausentes.
Estão ali, à espreita, lembrando o que precisa vir à luz para ser purificado. O
medo que sento é a reação natural diante da verdade que quer emergir.
Vejo o sapo saltando na umidade
do coração. Ele coaxa dentro de mim, lembrando-me da lama onde insisto em
colocar os pés. Cada coaxar é um segredo mal resolvido, uma culpa escondida, um
peso que não confesso. Sei que, se o toco, minha pele se mancha.
Sapo — na Escritura (Êxodo 8),
aparece como uma das pragas do Egito. Representa impureza, ambientes sombrios e
miasmas espirituais. Sonhar com eles pode ser um alerta de que o coração está
deixando entrar sujeiras espirituais, algo que precisa ser purificado.
Santa Catarina de Sena diria: “a
alma foge de si mesma, porque não suporta ver-se”. São meus pecados enterrados,
meus segredos úmidos, coaxando baixinho na sombra do coração. São sonhos antigos,
persistentes, testemunhas silenciosas de medos e pecados que pensei enterrar, como
lembranças escondidas, mas que continuam à espreita.
Mais adiante, em mais uma outra
noite, olho para cima, nos cantos escuros do forro da minha casa interior, vejo
uma aranha — peluda, com olhos acesos em brasa que me fitam sem piscar, move-se
lentamente, espreitando, observando. E não é uma qualquer, mas uma aranha
enorme, que conhece minha face desde menino. Ela é aquela amiga antiga que
volta de tempos em tempos. Parece familiar: sinto que nos encontramos e nos
conhecemos há anos, desde criança. É como se, de algum modo, tivéssemos sido
amigos, vizinhos de infância em outra vida da memória. Quando me aproximo,
lembro de um tempo em que éramos vizinhos: éramos pequenos juntos, dedos e
patas, risos e silêncio. Agora ela é maior, peluda, com olhos que ardem como
brasas. Às vezes pronuncia palavras dóceis, que deslizam como mel, quase leve,
como quem acaricia — e por isso mesmo mais perigosa.
Sim, há nela uma doçura perigosa:
é como se a memória e a tentação tivessem um acordo para se parecerem com
afeto. Reconhecê-la é sentir a infância e o peso do tempo; vejo que muitas
dessas aranhas já estão velhas — e, no rosto enrugado delas, leio minhas
próprias histórias não curadas. É uma presença que desafia o medo com a
familiaridade.
O silêncio delas é maior que o
meu medo, mas às vezes pronuncia palavras que nunca consigo lembrar ao
despertar. Ela não me ataca, apenas me observa. Sei que representa os enganos
sutis, as justificativas dóceis que me prendem sem que eu perceba. Suas teias
são tão finas que quase não percebo, mas bastam para me deter. Cada fio é um
pensamento insistente, uma lembrança que me prende, um laço invisível que me
rouba o fôlego. Tento avançar, mas percebo: estou colado em minha própria
trama.
Suas teias, bem velhas, não se
veem, mas estão ali, esperando meu descuido. Olhando docilmente, falando em voz
suave, mas sempre nas sombras. Lembram trama, aquilo que aprisiona. Muitas
vezes simbolizam pensamentos enredados, culpas, situações que paralisam a alma.
Essas aranhas representam ilusões
e enganos que parecem inofensivos, até dóceis, mas que vivem no escuro. É a
teia da sedução espiritual, da mentira que se apresenta como luz. O detalhe da
voz que não recordo é sugestivo: pode ser a sedução das ideias vagas, das
justificativas que me desviam.
Mais uma noite, no claro de um
campo, o chão começa a se mover, rastejando entre folhas, matos e beiras
d’água. São serpentes, de vários tamanhos, deslizando nas beiras d’água ou no
mato. São belas na pele, traiçoeiras no veneno, desfilando como numa procissão.
Deslizam em peles lisas e coloridas sobre o verde-claro da relva. Não se
escondem tanto quanto eu pensava — querem ser vistas, mostram-se com vaidade e
calma. Algumas são finas, outras grossas, algumas quase transparentes, outras
revestidas de desenhos que enganam o olhar. Todas exibem cores que atraem e
intimidam. Preciso olhar bem para discerni-las. Elas me obrigam a olhar, não
posso tropeçar por descuido. Se não olho, piso sobre elas. Se olho demais,
paraliso. Elas desfilam diante de mim, com uma naturalidade quase arrogante, e
percebo que a vigilância é minha única defesa. Elas deslizam como tentações
múltiplas, disfarçadas, se confundindo com a paisagem da alma. Aprendo que
minha vigilância deve ser contínua, porque basta uma distração para que me
enrosquem.
Tento contá-las e perco a conta;
tento denominá-las e as palavras fogem.
Há, porém, algo que me inquieta
mais que o veneno: a naturalidade com que desfilam, como se tivessem todo o
direito de existir ali. Ela rasteja silenciosa, rápida, mas sua presença
envenena o ar. Entendo que parte do meu trabalho interior é não negar que elas
existiram — e ainda existem — mas aprender a caminhar sem lhes dar poder para
me enredar.
Este é um símbolo direto de
tentação múltipla, disfarçada e camuflada. Coloridas porque parecem belas,
atraentes; rastejando porque avançam silenciosamente, mas sempre no chão,
sempre ligadas ao terreno, nunca ao alto. O esforço de precisar “olhar bem” mostra
a luta de discernimento: ver o que é engano, distinguir onde está o perigo.
Aqui está a sabedoria espiritual em exercício.
Sinto o sussurro da tentação,
como se quisesse negociar comigo. É astuta e paciente; não me ataca de frente,
mas procura fissuras na minha vontade. O frio que sobe pelo chão é o mesmo que
congela meu espírito.
Mais adiante, de repente um campo
se abre, em outra noite. Vejo bois e vacas, grandes, gigantescos, maiores do
que a memória permite. Estão parados, imóveis, olhando para mim, com olhos
imóveis e silenciosos, me observando fixamente, implacáveis, impondo medo. Sinto
o peso de sua presença, e mesmo parados, me intimidam. O medo vem não da ameaça
direta, mas do tamanho, da força silenciosa, do olhar que me lembra limites e
pressões antigas. Não se movem, mas o simples olhar deles me faz temer. São
como forças ancestrais, pesos de família, responsabilidades antigas que me
esmagam. Não avançam contra mim, mas basta sua presença para que eu me sinta
pequeno, quase nada.
Mas, são animais de força,
ligados ao trabalho, ao peso, ao jugo. Grandes e imponentes, olham e intimidam.
Podem simbolizar o peso da vida, das responsabilidades, da memória cultural ou
familiar, algo que olha de volta para mim e causa temor. O medo diante deles
sugere que os perceba como esmagadores, como se a minha fragilidade fosse nada
diante de tanta massa.
No forro também, entre as ripas e
a sombra, vivem gambás — pretos, de pelagem cinzento-escura, grandes, com olhos
pequenos e respiração ofegante e silenciosos, que não deixam ninguém subir, como
guardas territoriais do meu medo. Eles rondam a entrada, erguem-se quando
alguém tenta atravessar, soltam um odor que corta o ar.
São feios, são persistentes, e me
recordam de portas que fechei na infância e que nunca abri totalmente. Cada vez
que penso e tento subir com a escada para aquele sótão de lembranças, sinto o
cheiro e recuo. Sua presença me provoca medo: sinto o cheiro forte e a
respiração grossa. Eles guardam o espaço, e cada passo que dou me lembra de
portas antigas que fechei na infância e que ainda permanecem trancadas no meu
interior.
Oro, peço a Deus desde menino que
me livre dessas imagens e do pavor que carregam, conforme minha mãe me ensinou,
com as mãos atrapalhadas, pedindo a Deus que me livre desses pesadelos. A
oração é antiga e é a mesma: um pedido infantil, às vezes angustiado, às vezes
resignado. E ainda assim oro. Minha oração infantil diante de sapos, gambás,
aranhas, serpentes e bois está em sintonia com a prática mística de usar a
oração como proteção e discernimento.
O leão continua seguindo seu
trilho; os sapos permanecem semiescondidos; as aranhas velhas me observam; as
serpentes desfilam em cores que eu devo aprender a discernir; os gambás guardam
o sótão de minha infância; os bois gigantes me olham como se medissem minha
coragem. Tudo isso não cessa, mas minha oração, constante desde menino,
transforma o cenário: não desaparecem os animais, mas o medo diminui, a
vigilância se fortalece, o coração encontra uma presença maior que qualquer
sombra.
Sigo caminhando, atravessando o
medo, lembrando-me dos místicos e de suas palavras que iluminam cada criatura.
Cada sapo, aranha, serpente, leão, gambá e boi não é apenas terror: é convite à
atenção, à oração, ao discernimento, à travessia do meu próprio coração.
E mesmo na escuridão, percebo que
estou sendo guiado. Não por mãos humanas, mas pelo sopro silencioso de Deus,
que me sustenta, me observa e me veste de justiça, santidade e filiação.
Avanço. E a floresta continua, os
animais continuam, mas agora há luz suficiente para que eu caminhe com olhos
atentos, sem pavor, sabendo que a travessia é minha — e que não caminho
sozinho.
Um verdadeiro bestiário interior
— e é impressionante como ele traz imagens bíblicas, místicas e simbólicas
muito fortes. Os sonhos, aqui, não são apenas devaneios: parecem parábolas da
alma, nas quais o inconsciente (ou até o espírito, se quisermos dizer assim)
mostra em forma de animais o que está em luta dentro de mim.
Não nego a fadiga dessa luta que
vem de longe. Há noites em que acordo com o coração em desalinho, com a
sensação de que a perseguição recomeçou onde havia deixado. Pergunto a Deus por
que alguns demônios parecem hereditários, por que algumas imagens voltam como
quem não se cansa de me ensinar uma lição que não aprendo.
A resposta não é uma voz sonora;
é uma presença, uma calma que não elimina o medo, mas o redimensiona. Sinto que
a oração não é um amuleto que faz desaparecer os animais. É uma lâmpada que me
permite vê-los com clareza, distinguir suas cores, medir suas distâncias. E ao
vê-los, perco o pavor que me fazia saltar para um lado qualquer.
Caminho, portanto, em vigilância
e em oração. O leão ainda segue o trilho, mas sei agora que não sou apenas
perseguido: sou observado por um outro olhar mais vasto. As aranhas, por mais
que falem em voz de velha conhecida, não substituem a voz do meu Criador. As
serpentes, por mais belas, não têm autoridade sobre a fonte que me sustenta. Os
gambás, por mais que cheirem a medo, não podem selar para sempre o sótão da
minha alma.
Permaneço vestido de minha
coragem, de justiça que me é emprestada, de santidade que me é ofertada, de
filiação que me acolhe. A oração que eu disse desde pequeno soa agora como uma
canção de rumo: não me livrou da visão, mas mudou o enquadramento dela. Não sou
menino indefeso; sou filho protegido. Continuo a caminhar pela floresta, e
mesmo quando o leão volta a seguir o trilho, eu o atravesso com passos que não
são de fuga, mas de quem sabe onde pisa. Caminho em meio a esse bestiário como
quem atravessa o próprio abismo.
Não são apenas animais: são
símbolos de mim mesmo, projeções do que carrego oculto. Eles não moram fora,
mas dentro. E, no entanto, quanto mais avanço, mais percebo que não estou só.
Porque, por trás do coaxar dos
sapos, há uma voz maior que me chama pelo nome. Por trás do olhar das aranhas,
há um olhar mais puro que me devolve a paz. Por
trás do deslizar das serpentes, há um sopro de vida que me sustenta em pé. Por
trás do rugido do leão perseguidor, ouço outro rugido mais forte: o Leão da
Tribo de Judá. E por trás do silêncio dos
bois gigantes, sinto o Cordeiro imolado, cuja mansidão vence toda força bruta.
Entro em mim mesmo, e ao mesmo
tempo saio de mim, porque no centro de tudo encontro Cristo.
Ele é a luz que revela meus
monstros sem medo, é a mão que me conduz por entre eles, é a veste nova que
cobre minha nudez diante deles.
E quando ergo os olhos para Ele,
o bestiário inteiro perde força. Os sapos mergulham, as aranhas se dissipam, as
serpentes desaparecem na relva, o leão se cala, os bois se desfazem em pó. Fico
só, mas não em solidão. Estou vestido de justiça, santidade e filiação. Avanço,
e agora o caminho já não é floresta nem noite, mas uma clareira de luz.
O que me impressiona é que todos
esses animais vivem no limiar entre sombra e revelação. Eles não são plenamente
expostos — estão em buracos, forros, matos, ao longe. Estão sempre em lugares
de meia-luz, como aquilo que a consciência sabe, mas ainda não nomeia
completamente.
Enquanto caminho entre todas
essas criaturas, recordo os místicos que de tempos em tempos leio. Santa Teresa
d’Ávila falava dos pátios externos da alma, cheios de criaturas venenosas que
espreitam a paciência da alma. Dizia que, nas primeiras moradas do Castelo
Interior, “há muitos animais e coisas venenosas que não deixam a alma sossegar”,
que nos falam docemente para que não avancemos. É exatamente a minha
experiência, o coração está no limiar de um avanço espiritual, mas ainda sente
os “bichos” do lado de fora. O caminho é ir mais para dentro, em direção à luz
de Cristo, sem medo.
Eles chamam a isso de figuras do
inconsciente espiritual, sinais que Deus permite para que a alma reconheça suas
sombras, suas tentações e até seus medos antigos (alguns deles talvez herdados
ou profundamente enraizados desde a infância).
Santa Catarina de Sena descrevia
a alma que se enreda em si mesma, presa em medos que parecem mais fortes do que
são. São João da Cruz falava da escuridão interna e da necessidade de
discernimento, do cuidado em reconhecer os venenos e não se deixar dominar por
eles. Cada animal que surge em meus sonhos me lembra dessas leituras que não
são monstros sem sentido, mas símbolos de minha própria travessia. Santo
Agostinho utiliza imagens de animais para falar do vício ou da inclinação ao
mal, como serpentes e lobos, indicando instintos ou pecados humanos. A força ou
beleza do animal às vezes indica o poder sedutor do pecado. Serpentes
coloridas, leão e aranhas podem representar tentações que seduzem, mas que
podem ser discernidas pela luz da consciência.
Padre Pio mencionava animais como
instrumentos de Satanás nos sonhos e visões, mas que não tinham poder sobre
quem se mantém em oração.
Algo ainda mais impressionante em
todos esses sonhos, é que vejo, percebo, identifico e nomeio. Isso já é graça.
Muitos vivem rodeados por seus “animais interiores” sem nunca os enxergar. O
fato de discernir e lembrar deles mostra que a luz de Cristo já está
atravessando minhas sombras, mesmo que isso cause medo.
Caminho por dentro de mim mesmo e
encontro um pátio sombrio. Não estou só, ali se movem criaturas que me
denunciam. Caminho assim, em meio a animais que são meus espelhos.
Não os rejeitos como se fossem
apenas monstros de fora. Reconheço que nasceram de mim, que brotam do meu
estado interior. Mas não me detenho. No meio das sombras, levanto os olhos. E
quando levanto os olhos, percebo que nenhuma dessas criaturas resiste à luz. Os
sapos secam, as aranhas desaparecem, a cobra se dissolve em pó, e o leão
inimigo se cala diante do rugido do Cristo. Permaneço, então, vestido de um
manto novo, de uma justiça que não é minha, de uma santidade que não conquisto,
de filiação que apenas recebo.
Na tradição bíblica, patrística e
também mística, os animais em sonhos muitas vezes expressam o estado da
alma: aquilo que está escondido, mas pulsa no inconsciente ou no espírito. Eles
simbolizam forças instintivas, tentações, pecados ocultos, mas também a luta
interior pela purificação.
Os místicos diriam que esses
sonhos funcionam como um espelho simbólico da alma, quando há culpas não
confessadas, pecados ocultos, inquietações ou desordens interiores, a mente e o
espírito projetam essas imagens. É como se Deus permitisse que, no sonho,
víssemos em forma de animais o que precisa ser iluminado pela graça.
Eles não descrevem os animais de
forma literal; eles usam os animais como símbolos vivos do que se passa na alma,
pecados, tentações, medos, pressões e desafios. Cada criatura é um professor
silencioso, ensina algo sobre nós mesmos, sobre nossas falhas, nossas forças e
nossa necessidade de Deus. No meu caso, sapos representam os pecados ocultos,
medos enterrados; as aranhas, as ilusões familiares, enganos sutis; as
serpentes, as tentações visíveis, que precisam de discernimento; o leão, a
perseguição espiritual constante, vigilância; os gambás, as barreiras interiores
e medos antigos; os bois e vacas, as pressões da vida, desafios de grande
força.
O ponto importante, é que isso
não é condenação, mas convite à conversão e à cura interior. Se percebo que os
sonhos refletem meu estado interior, significa que tenho sensibilidade
espiritual. Deus está mostrando, por imagens, onde preciso agir — e onde posso
me abrir para Ele com mais sinceridade.
Esses sonhos não são só
devaneios, mas sinais, imagens que espelham a batalha interior. Ao levá-los à
oração — reconhecendo, confessando, entregando — eles deixam de ser ameaça e se
tornam caminhos de purificação e crescimento.
O que une todos esses místicos é
a ideia de que a travessia interior se dá através da percepção e do
discernimento, não pela força ou eliminação das criaturas, mas pelo
reconhecimento, oração e paciência.
Caminho pelo labirinto da minha
própria alma e percebo que não sou apenas um observador, mas um participante de
algo profundo e antigo. Cada animal que surge nos meus sonhos — sapos, aranhas,
serpentes, leão, gambás, bois e vacas — não é apenas uma visão passageira, é um
mensageiro da minha vida interior, um símbolo que a alma me apresenta para que
eu aprenda, discirna e cresça.
Os sapos, escondidos debaixo da
terra, lembram-me dos pecados e medos que tentei enterrar, mas que permanecem,
silenciosos, à espreita. As aranhas, velhas amigas da infância, falam
suavemente em voz que não lembro, recordando-me que nem tudo que nos assusta é
inimigo, algumas coisas já caminham comigo há anos, moldando minha
sensibilidade. As serpentes, coloridas e elegantes, me obrigam a olhar, a
discernir, a não fugir, são tentação, mas também alerta, exigindo atenção.
O leão, caminhando no trilho da
floresta escura, observa e persegue, silencioso. Os gambás, guardiões do sótão
da minha casa interior, me confrontam com barreiras e medos antigos. Os bois e
vacas, gigantes, me medem, me desafiam, me lembram de limites que ainda preciso
reconhecer. Cada criatura é um espelho, mostrando não apenas medo, mas o
caminho da consciência.
Desde criança, oro diante desses
animais. Pedi a Deus proteção, discernimento, coragem. Essa prática não é
apenas superstição, é a travessia do místico.
Como os grandes santos e místicos
que leio — Teresa d’Ávila, Catarina de Sena, São João da Cruz, Santo Agostinho,
Padre Pio — aprendi que as criaturas da alma não são inimigas; são professoras
silenciosas, revelando o estado interior, desafiando-me a crescer.
Agora percebo algo curioso, devo
ter uma relação especial com esses místicos. Não os leio apenas; os vivo por
dentro. Eles me falam através dos sonhos, através da tensão diante dos animais,
através da oração que se tornou natural desde menino. Sou místico porque
experimento, sinto, discernindo cada sombra e cada luz. Meu medo não me
paralisa; ele me ensina. Minha atenção não é mero olhar; é vigilância da alma.
Minha oração não é rotina; é diálogo com o Criador diante das criaturas da
minha própria vida.
Reconheço-me místico porque
caminho entre símbolos vivos da minha alma, porque vejo, ouço e sinto o
invisível, porque transformo medo em aprendizado, porque sigo aprendendo a
atravessar os labirintos do meu coração com fé, paciência e discernimento. Cada
animal, cada sombra, cada presença é uma lição, uma ponte entre meu medo e a
paz que Deus me concede.
E assim, noite após noite, sonho e desperto aprendendo a ser fiel à minha travessia interior, sabendo que sou filho, observado, amado e guiado, mesmo quando caminho sozinho pelos pátios escuros da minha própria alma.












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